Cooperar para competir

EUA, Alemanha e Japão usam a cooperação técnica para abrir mercados. O Brasil pode fazer o mesmo

Frederico Lamego  (*)

A geopolítica mudou as prioridades. Temas como segurança, defesa, cadeias de suprimento e acesso a minerais críticos ganharam relevo em detrimento da agenda do desenvolvimento. Quando se examina as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a ONU calcula que apenas 35% das metas dos estão no rumo adequado ou progridem de forma moderada. Outros 18% dos ODS regrediram abaixo do patamar de 2015. O financiamento acompanhou a queda. Segundo o Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (DAC) da OCDE, a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD) caiu 23,1% em termos reais em 2025. É a maior retração anual já registrada. O volume totalizou US$ 174,3 bilhões, ou 0,26% PIB desses países, contra 0,34% em 2024. A meta acordada era alocar 0,7% do PIB por parte das principais economias que integram a OCDE. Os cinco maiores doadores (EUA, Alemanha, Reino Unido, Japão e França) responderam por 95,7% da retração. Para 2026, DAC projeta nova queda, de 5,8%. A filantropia internacional busca complementar esses recursos. No entanto, o volume total alocado por mais 205 fundações, entre 2016 e 2019, totalizou US$ 42,5 bilhões de acordo com a OCDE. Nesse contexto, a cooperação técnica internacional vive sua maior inflexão desde o fim da Guerra Fria. A pergunta já não é quanto os países desenvolvidos vão doar. É para que, e para quem. E, sobretudo, como a cooperação vai sobreviver.

Foi nesse cenário que os EUA encerraram as atividades da tradicional USAID (United States Agency for International Development) em julho de 2025. Em paralelo, a organização DFC (International Development Finance Corporation) ganhou importância. Em dezembro de 2025, o Congresso americano ampliou sua carteira de projetos de US$ 60 bilhões para US$ 205 bilhões. Washington troca a doação por investimentos no exterior, com foco em energia, minerais críticos, tecnologia e insumos estratégicos. O reposicionamento dos EUA já foi adotado por outros países. No caso da Alemanha, há dois atores:  a GIZ (Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit), responsável pela cooperação e o KfW (Kreditanstalt für Wiederaufbau), pelo financiamento. Ambos atuam de forma alinhada. E a GIZ ainda conta com a GIZ International Services – que oferece consultoria internacional em temas associados com a agenda do desenvolvimento. Governos, organismos e empresas contratam diretamente consultoria técnica especializada no Made in Germany. O modelo atende sobretudo países de renda média e economias que já estão em outro estágio de desenvolvimento. Esses países não buscam doação, mas sim transferência de tecnologia, conhecimento técnico e apoio regulatório.  

O Japão foi mais longe. A JICA (Japan International Cooperation Agency) concentra cooperação técnica, doações e crédito concessional desde 2008. A partir de 2011, retomou o financiamento e o investimento direto em projetos do setor privado no exterior. Ou seja, concilia a aplicação de recursos com a internacionalização de empresas japonesas. Atualmente, a JICA oferece pacotes de cooperação, baseados nas forças da indústria japonesa, ao invés de priorizar demandas de países em desenvolvimento. Entre os temas prioritários, consta a segurança no suprimento de minerais críticos. O modelo japonês funciona na prática como uma parceria público-privada – PPP. Há programas que objetivam testar produtos e tecnologias de empresas japonesas para atender necessidades de países em desenvolvimento. Doações financiam obras com previsão de participação de empresas japonesas na construção, operação e manutenção. Promoção comercial, crédito, investimento e cooperação técnica andam juntos.

Os números abaixo da JICA para a África mostram essa combinação. O crédito oferecido para grandes projetos de infraestrutura e chegou a ¥ 245 bilhões em 2022. Doações, financiamento e cooperação técnica são mais estáveis e sustentam a presença contínua no terreno. 

Fonte: JICA, Departamento de África, JICA’s cooperation with Africa (2026) · anos fiscais 2020–2024

A África mostra como esse desenho funciona na prática e como está coerente com a estratégia nacional do Japão. Em 2023, havia 948 bases de empresas japonesas no continente, quase o dobro de 2010. Metade delas está em quatro países: África do Sul, Quênia, Marrocos e Egito. E a JICA mantém escritórios em 31 países africanos, tendo comprometido cerca de ¥ 133 bilhões em recursos para projetos om a África Subsaariana. Nos países onde a presença empresarial japonesa é maior, há polos para promover a cooperação técnica. À título de exemplo, o Quênia é o segundo destino das empresas japonesa e abriga projeto da JICA no porto de Mombasa.

O mundo que se desenha é de disputa constante por áreas de influência. E minerais críticos, energia, alimentos e tecnologia vão direcionar a pauta das políticas externas. Para o Brasil, os casos acima demonstram que a nova geopolítica exige parceria público-privada nas pautas internacionais. E a cooperação brasileira pode ganhar escala se estiver alinhada com as pautas de promoção comercial, atração de investimentos e internacionalização de empresas já que possui ativos raros: agricultura de ponta, minerais raros e grande potencial na transição energética e bioeconomia. Quem coopera ganha acesso, confiança e presença. E abre caminho para uma agenda comercial sustentável já que mitiga riscos de operação e promove o desenvolvimento do entorno. Quem se ausenta abre espaço para outros. Aqueles países que consigam alinhar suas agendas comerciais com a de cooperação poderão ter vantagem competitiva na busca por áreas de influência.

 

(*) Frederico Lamego é Assessor Especial da Presidência da CNI e Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília.

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