5 Erros que Fazem a Sua Primeira Exportação Virar Prejuízo

O guia honesto para quem está prestes a dar o primeiro passo no comércio exterior

Exportar pela primeira vez é um momento de conquista.

Meses de preparação, pesquisa de mercado, ajuste do produto, negociação com o importador. Quando o embarque finalmente acontece, a sensação é de que o mundo inteiro acabou de abrir uma porta.

E então algo dá errado.

Não porque o produto era ruim. Não porque o mercado não queria comprar. Mas porque um detalhe que parecia pequeno, um documento incorreto, um custo esquecido, uma cláusula ausente, transformou uma operação promissora em prejuízo real.

Essa história se repete com frequência no comércio exterior brasileiro. E o que une quase todos os casos é um fator comum: os erros que causaram o problema não eram imprevisíveis. Eram evitáveis. E na maioria das vezes, quem os cometeu simplesmente não sabia que existiam.

Este artigo foi escrito para mudar isso.

Não é uma lista de curiosidades. É um mapa dos cinco pontos onde exportadores iniciantes perdem dinheiro com mais frequência, com a explicação de por que cada erro acontece e o que fazer para não cometê-lo.

Erro 1 — Calcular o preço de exportação a partir do preço interno

Este é o erro mais silencioso da lista. Ele não aparece na hora do embarque. Não aparece na alfândega. Ele aparece quando você faz a conta final da operação e percebe que vendeu bem, embarcou com orgulho e ficou no zero, ou abaixo.

Como acontece:

O exportador pega o preço de venda no mercado brasileiro, converte para dólar pela cotação do dia e manda para o importador. Parece lógico. Mas o preço interno foi calculado para cobrir os custos de uma venda doméstica, não os custos de uma exportação.

O que fica de fora dessa conta?

O frete interno do armazém até o porto. A THC — Terminal Handling Charge — a taxa cobrada pelo terminal portuário pela movimentação do contêiner, que pode variar entre R$ 400 e R$ 1.200 por unidade. O Certificado de Origem. O despachante aduaneiro. A embalagem reforçada para o modal marítimo. O seguro internacional. A corretagem de câmbio.

Cada um desses itens parece pequeno isoladamente. Juntos, podem representar entre 15% e 35% do valor da mercadoria.

O que fazer:

O preço de exportação correto se chama Preço FOB e é calculado a partir do custo de produção, não do preço de venda interno. A fórmula é direta:

Preço FOB = Custo de produção + Custos de exportação + Margem de lucro

Antes de enviar qualquer proposta a um importador, liste todos os custos envolvidos na operação, da fábrica até o bordo do navio. Somente depois defina a margem que faz sentido para o seu negócio e converta para a moeda negociada.

Nunca negocie preço internacional sem ter feito essa conta antes. O importador vai pedir desconto. Você precisa saber até onde pode ir sem trabalhar no prejuízo.

Erro 2 — Classificar o NCM errado

O NCM — Nomenclatura Comum do Mercosul — é o código de oito dígitos que classifica cada mercadoria no sistema aduaneiro brasileiro. Ele determina a alíquota de impostos, as exigências de licenciamento, os acordos comerciais disponíveis e as obrigações de certificação.

Parece burocracia. É uma das decisões mais importantes de toda a operação.

Como acontece:

O exportador iniciante olha para a tabela NCM e escolhe o código que parece mais parecido com o produto. Ou pega o código que um concorrente usa. Ou usa o que o contador sugere sem verificação específica.

O problema é que dois produtos aparentemente similares podem ter NCMs completamente diferentes, com implicações fiscais e regulatórias totalmente distintas.

Uma empresa que exporta molho de pimenta industrializado e usa o NCM de pimenta in natura está classificando errado. As alíquotas são diferentes. Os documentos exigidos são diferentes. As restrições no país de destino podem ser diferentes.

As consequências de uma classificação errada incluem multa de até 1% do valor da operação, retenção da carga na alfândega, necessidade de retificação da Declaração de Exportação e, em casos mais graves, cancelamento da operação.

O que fazer:

A classificação correta do NCM é responsabilidade do exportador — mas não precisa ser feita sozinho. O despachante aduaneiro é o profissional mais indicado para confirmar a classificação de produtos com maior complexidade.

Para produtos mais simples, a Receita Federal disponibiliza a tabela NCM atualizada no portal receita.fazenda.gov.br. Use também o sistema de consulta do MDIC e, quando em dúvida, solicite uma consulta formal de classificação fiscal à Receita Federal — é um procedimento gratuito que garante segurança jurídica para a operação.

Nunca embarque sem ter a certeza do NCM correto.

A Academia Comex desenvolveu um guia completo com o passo a passo da primeira exportação — do registro no Siscomex ao fechamento do câmbio. Se você está planejando a sua primeira operação, o material pode ser o atalho que evita meses de tentativa e erro.

→ Conheça o guia Como Começar a Exportar

Erro 3 — Ignorar os custos logísticos que não estão no frete

Quando um exportador pede cotação de frete para o agente de cargas, recebe um número. Esse número é o Ocean Freight — o frete base de porto a porto. E é apenas uma parte do que vai aparecer na fatura final.

Como acontece:

O exportador calcula a operação com base no frete cotado. Embarca. E quando chegam as faturas, encontra uma lista de cobranças que nunca tinha visto antes.

THC de origem — movimentação do contêiner no terminal portuário brasileiro.
BAF — Bunker Adjustment Factor — variação do preço do combustível repassada pelo armador.
CAF — Currency Adjustment Factor — variação cambial.
B/L Fee — emissão do conhecimento de embarque.
Documentation Fee — taxa administrativa do agente de cargas.
PSS — Peak Season Surcharge — sobretaxa em períodos de alta demanda.

E o mais assustador para quem não sabe que existe: demurrage e detention.

O demurrage é a taxa cobrada quando o contêiner fica dentro do terminal portuário no destino além do prazo gratuito concedido pelo armador — o chamado free time, que geralmente varia entre 7 e 14 dias. Quando esse prazo vence sem que o importador retire a mercadoria, o armador começa a cobrar por dia de ocupação do espaço. Os valores variam, mas podem chegar a US$ 100 ou mais por dia por contêiner.

O detention é a mesma lógica, mas para quando o contêiner sai do terminal e fica no armazém do importador além do prazo permitido.

Uma operação com contêiner parado por 30 dias além do free time pode gerar uma conta de US$ 2.000 a US$ 4.000 — facilmente maior do que o lucro de uma operação pequena.

O que fazer:

Ao pedir cotação de frete, solicite sempre a lista completa de taxas além do Ocean Freight — especificamente THC de origem e destino, B/L Fee e Document Fee. Peça também qual é o free time concedido no porto de destino.

No contrato com o importador, inclua uma cláusula definindo responsabilidade por demurrage e detention no destino. Quem causou o atraso paga. Sem essa cláusula, o exportador pode ser envolvido numa disputa desnecessária.

Compare sempre pelo menos três cotações de agentes de cargas diferentes antes de fechar o frete. A diferença entre agentes pode ser significativa e o mais barato nem sempre é o melhor quando se considera a qualidade do serviço e o suporte em caso de problema.

Erro 4 — Exportar sem contrato escrito com o importador

Este é o erro que tem o potencial de causar o maior prejuízo absoluto. Não em todas as operações, mas quando acontece, o impacto pode ser devastador.

Como acontece:

A negociação correu bem. O importador parece sólido. A relação foi construída ao longo de meses de e-mails e videochamadas. O contrato formal parece excessivo para o momento — “vamos fazer essa primeira operação e depois formalizamos melhor.”

A mercadoria é embarcada. Os documentos são enviados. E então o pagamento não chega.

Sem contrato escrito, o exportador não tem onde se apoiar. Não há cláusula de pagamento para acionar. Não há prazo definido juridicamente. Não há foro de resolução de disputas especificado. Não há lei aplicável definida.

Acionar judicialmente um importador estrangeiro sem base contratual é um processo caro, demorado e de resultado incerto, especialmente em países sem acordos de cooperação jurídica com o Brasil.

Mas o problema não é só o não pagamento. Um exportador sem contrato também fica vulnerável a reclamações tardias de qualidade — sem prazo de reclamação definido, o importador pode rejeitar a mercadoria semanas ou meses depois da chegada. Fica vulnerável a disputas sobre especificações do produto — sem descrição técnica formalizada, o que foi “acordado” é uma questão de memória e interpretação. E fica vulnerável a agentes e representantes que levam a carteira de clientes embora no fim do contrato, sem cláusula de propriedade dos clientes, esse ativo vai junto.

O que fazer:

Todo negócio internacional acima de US$ 5.000 merece um contrato escrito. Não precisa ser um documento de 30 páginas para começar, um contrato básico com as cláusulas essenciais já oferece proteção real:

Identificação completa das partes com dados de registro empresarial. Descrição técnica precisa do produto com referência a amostras aprovadas. Quantidade, preço unitário, valor total e moeda. Incoterm e local de entrega. Forma e prazo de pagamento com penalidade por atraso. Prazo máximo para reclamação de não conformidade. Lei aplicável e foro de resolução de disputas, preferencialmente arbitragem internacional.

A assinatura eletrônica resolve o problema da distância. Plataformas como DocuSign e ClickSign têm validade jurídica reconhecida em mais de 60 países e permitem formalizar o contrato em minutos, independente de onde as partes estão.

O contrato não é de desconfiança. É profissionalismo. E importadores sérios — especialmente europeus e norte-americanos — ficam mais confiantes, não menos, quando o exportador apresenta um contrato bem estruturado.

Para quem está formalizando as primeiras operações internacionais, a Academia Comex desenvolveu um guia completo sobre contratos internacionais — com as cláusulas essenciais explicadas, guia de negociação intercultural e modelo de contrato em português pronto para adaptar.

→ Conheça o guia Estruturação e Fechamento de Contratos Internacionais

Erro 5 — Subestimar a embalagem para o modal marítimo

O produto chegou ao destino. Mas chegou errado.

Este é o erro que mais surpreende exportadores iniciantes — porque a embalagem parece um detalhe secundário comparado a tudo que está em jogo numa operação internacional. E é exatamente por isso que ela é subestimada.

Como acontece:

A mercadoria é embalada da mesma forma que seria para uma venda doméstica. Caixa de papelão simples, palete de madeira não tratado, sem proteção contra umidade.

O contêiner fecha no porto de Santos. O navio parte. E durante os próximos 22 dias de travessia até a Europa, a temperatura dentro do contêiner varia entre 5°C e 50°C dependendo do trecho, da exposição ao sol e da posição do contêiner no navio. A umidade relativa no interior pode atingir 100%. A condensação se acumula no teto e nas paredes do contêiner e pinga sobre a carga.

Produtos eletrônicos oxidam. Alimentos processados absorvem umidade e perdem textura. Metais enferrujam. Embalagens de papelão colapsam sob o peso. Rótulos soltam.

O importador recebe e recusa parte da carga.

E se o palete era de madeira sem o tratamento NIMF-15 — a norma fitossanitária internacional exigida por praticamente todos os países do mundo — a mercadoria pode ser retida ou destruída na alfândega do destino antes mesmo de chegar ao importador.

O custo de uma carga recusada ou destruída não é apenas financeiro. É o relacionamento com o importador, a reputação da empresa e, em alguns casos, a inviabilidade de reembarcar ou devolver o produto.

O que fazer:

A embalagem de exportação precisa ser dimensionada para a viagem que a mercadoria vai fazer, não para a venda que vai acontecer no destino.

Para o modal marítimo, as proteções essenciais são: caixa de papelão ondulado duplo ou triplo, com resistência à umidade adequada ao produto. Filme stretch envolvendo o palete inteiro para estabilidade e barreira física. Sachês de sílica gel no interior das caixas para controle de umidade, especialmente para eletrônicos, metais, alimentos e produtos sensíveis. Cintas de polipropileno para volumes pesados e irregulares. Paletes de madeira com certificação NIMF-15 — sem exceção, para qualquer destino.

A marcação da embalagem também precisa estar correta: nome e endereço do exportador e do importador, descrição da mercadoria, NCM, peso bruto e líquido de cada volume, dimensões, país de origem e marcas de manuseio quando aplicável.

Uma dica prática antes de qualquer embarque marítimo de longo curso: fotografe o interior do contêiner vazio antes de carregar. Verifique cheiro, manchas e furos no assoalho. Documente o stuffing com fotos da carga posicionada. Em caso de sinistro, essa documentação é o que diferencia uma indenização aprovada de uma reclamação negada pela seguradora.

E contrate o seguro. O seguro ICC A cobre praticamente todos os riscos de uma viagem marítima por menos de 1% do valor da carga. É o custo que mais se justifica numa operação de exportação e o que mais é esquecido na pressa do primeiro embarque.

O que esses cinco erros têm em comum

Nenhum deles é resultado de má intenção. Nenhum deles é imprevisível. E nenhum deles precisa ser aprendido na prática.

Todos os cinco erros acontecem por uma razão simples: o exportador iniciante entra na operação sem conhecer o processo completo. Ele conhece o produto. Conhece o mercado. Mas não conhece as regras do jogo que conectam os dois.

O comércio exterior tem uma curva de aprendizado, mas essa curva pode ser encurtada. Cada erro desta lista representa semanas ou meses de experiência dolorosa que podem ser substituídos por horas de estudo estruturado antes de embarcar.

A diferença entre uma primeira exportação lucrativa e uma primeira exportação que vira prejuízo raramente está no produto ou no mercado. Está no preparo de quem operou.

Antes de encerrar, uma reflexão:

Exportadores que superam a primeira operação com resultado positivo quase sempre têm algo em comum: eles buscam informação antes de precisar dela.

Não esperaram o erro para aprender sobre NCM. Não descobriram o demurrage na fatura. Não encontraram o contrato faltando depois que o importador sumiu.

Eles foram ao encontro do conhecimento antes de ir ao encontro do embarque.

Se você está planejando a sua primeira exportação ou já está no processo e quer garantir que cada etapa está sendo feita da forma correta, a Academia Comex reúne os três guias mais completos disponíveis em português sobre o tema do registro no Siscomex ao fechamento do contrato internacional.

→ Acesse a Academia Comex e comece a exportar com segurança

Este artigo foi produzido pelo portal Comex do Brasil — referência em notícias e conteúdo especializado em comércio exterior, logística internacional e negócios globais.

comexdobrasil.com

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ABF e ApexBrasil promovem missão de imersão de franquias brasileiras na inovação do varejo chinês

Grupo de empresários do franchising terá em agosto agenda intensa em Xangai e Pequim, com especial destaque para compreender as transformações da China e a aplicação de IA e outros tecnologias aos negócios

Da Redação (*)

Brasília – As relações comerciais entre Brasil e China também avançam no franchising. Enquanto grandes redes chinesas aceleram seus planos de expansão para o mercado brasileiro, empresários brasileiros buscam conhecer de perto um dos ecossistemas de varejo, inovação e tecnologia mais dinâmicos do mundo. Segundo dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF), ao menos seis franquias brasileiras já operam na China, com cerca de 23 operações de franquias, incluindo Hong Kong. É nesse contexto que a ABF, em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), por meio do programa Franchising Brasil, realiza a Missão ABF China, entre os dias 27 de agosto e 5 de setembro de 2026.

A iniciativa, que terá agenda nas cidades de Xangai e Pequim, visa criar oportunidades para movimentar negócios, estimular a troca de conhecimento e fomentar parcerias entre empresas dos dois países. Durante dez dias, empresários e representantes de franqueadoras brasileiras terão acesso a uma agenda exclusiva voltada à inovação, transformação digital, varejo, expansão internacional e às principais tendências que estão redesenhando o setor de franquias em escala global.

China, potência em tecnologia e IA

A China se consolidou como uma das maiores potências mundiais em tecnologia, inteligência artificial, meios de pagamento digitais, logística e experiências de consumo. Ao mesmo tempo, marcas chinesas ampliam sua presença internacional e começam a enxergar o Brasil como um mercado prioritário para expansão, movimento observado recentemente com o anúncio da chegada de grandes redes do segmento de alimentação e bebidas ao País, como a Mixue e a Ai-Cha.

“A Missão ABF China foi estruturada para proporcionar uma visão prática sobre esse cenário. Os participantes realizarão visitas técnicas a empresas e operações de referência, conhecerão modelos inovadores de varejo, participarão de palestras e workshops com especialistas locais, além de encontros com entidades e organizações que atuam diretamente no desenvolvimento do franchising e da inovação na China”, explica Caroline Graciani, diretora-executiva da ABF.

Além do conteúdo técnico, a missão foi desenhada para ampliar o networking internacional dos participantes, criando um ambiente propício para a geração de negócios, identificação de oportunidades comerciais e desenvolvimento de futuras parcerias entre empresas brasileiras e chinesas.

 

Com vagas limitadas, as inscrições estão abertas, com mais informações aqui.

Serviço

Missão China ABF

Data: 27 de agosto a 5 de setembro de 2026

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Terras raras: por que a competitividade do Brasil depende de tecnologia?

Roberto Mielle (*)

A adoção de Inteligência Artificial (IA) vem promovendo uma transformação estrutural na indústria da mineração, com ganhos mensuráveis em produtividade, aumento da segurança, redução de custos e desempenho ambiental. Integrada a toda a cadeia produtiva, a tecnologia consolida-se como um dos principais vetores de competitividade do setor.

Esse movimento ganha contornos ainda mais estratégicos quando observado sob a ótica das Terras Raras, um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a economia digital e de baixo carbono, que estão no centro das discussões geopolíticas e das cadeias industriais globais. O Brasil possui potencial relevante nesse campo, com reservas expressivas que podem representar cerca de 25% dos recursos mundiais, segundo o Ministério de Minas e Energia (MME).

A relevância do tema é refletida na percepção dos próprios líderes do setor: 62% dos executivos brasileiros do setor de mineração e metais consideram que a geopolítica está entre as dez principais oportunidades e riscos para o setor em 2026, de acordo com a EY. O entendimento é que, com o país fora dos principais conflitos mundiais, aumentam a visibilidade e o papel estratégico da produção brasileira desses minerais que se mostram essenciais para a economia mundial nos próximos anos.

No entanto, a mineração desses metais é, por natureza, mais complexa do que a de outros minerais. O processo todo envolve mineralogia heterogênea e processos de separação altamente sofisticados, exigindo precisão operacional e controle contínuo, exatamente onde a IA gera mais valor. Na etapa de lavra, definida pelo conjunto de operações para aproveitar industrialmente uma jazida mineral, a tecnologia permite integrar dados geológicos, operacionais e ambientais, viabilizando decisões mais assertivas sobre sequenciamento, alocação de frota e mitigação de riscos geotécnicos.

Modelos preditivos, aliados à visão computacional e sensores inteligentes, monitoram em tempo real variáveis críticas, desde condições climáticas até deformações em taludes, superfícies que delimitam maciços de solo ou rocha. Esse nível de inteligência é particularmente relevante em depósitos de Terras Raras, já que pequenas variações de teor ou composição podem impactar significativamente a viabilidade econômica do projeto.

Na etapa de beneficiamento, momento em que as matérias-primas se convertem em produtos finais, a complexidade é ainda maior. A separação desses elementos exige processos como flotação seletiva e etapas químicas refinadas, nas quais pequenas variações operacionais impactam diretamente a recuperação metálica e a qualidade do produto final.

Nesse contexto, a IA atua como um motor de otimização contínua, com algoritmos de machine learning ajustando automaticamente parâmetros de moagem, flotação e classificação a partir de dados de mineralogia on-line, granulometria e desempenho metalúrgico. O resultado é maior estabilidade operacional e menor geração de rejeitos. Para Terras Raras, esse ganho é particularmente relevante, pois pode representar a diferença entre um projeto marginal e uma operação economicamente viável.

Segundo a Grand View Research, o mercado global de Inteligência Artificial aplicada à mineração deve atingir US$ 685,6 bilhões até 2033, com crescimento anual composto (CAGR) de 41,9%. O avanço é impulsionado pela busca por tecnologias que aprimorem a precisão do gerenciamento de dados, a tomada de decisões, a produtividade e otimizem as operações com sustentabilidade ambiental.

Nesse cenário, o Brasil tem a oportunidade de ampliar uma agenda consistente de digitalização e adoção de IA, tornando a mineração, inclusive de Terras Raras, mais eficiente, sustentável, segura e competitiva.

Temos que lembrar que é o negócio que dita a necessidade, no qual a Inteligência Artificial otimiza as possibilidades de sucesso! Assim, o Brasil somente precisa aplicar sua capacidade tecnológica para explorar melhor aquilo que já possui.

(*) Roberto Mielle é gerente de desenvolvimento de negócios na SONDA do Brasil, líder regional em Transformação Digital.

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Mordaça de Xangai: soberania ou submissão tecnológica?

Márcio Coimbra (*)

Na abertura da recente Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai, Xi Jinping anunciou a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial. Com a adesão de 28 países — incluindo o Brasil —, Pequim vendeu a iniciativa como um marco emancipatório para o Sul Global, prometendo capacitar 5 mil profissionais e democratizar a governança do setor. Contudo, por trás da retórica inclusiva, esconde-se uma estratégia geopolítica calculada e o risco iminente de aprisionamento tecnológico.

Ao exaltar o open source como uma “oportunidade histórica”, o regime chinês expõe um paradoxo flagrante. A China opera o ecossistema digital mais censurado do mundo, protegido pelo Great Firewall e regido por normas que exigem que qualquer IA generativa reflita compulsoriamente os “valores socialistas” do Partido Comunista. Pregar abertura internacional enquanto se impõe uma mordaça algorítmica interna serve apenas para absorver dados e tecnologia ocidentais, sem jamais permitir auditoria transparente em seus próprios sistemas.

Essa promessa de representatividade para o Sul Global mascara a exportação deliberada de dependência. Ao financiar a infraestrutura e os padrões técnicos na América Latina, Pequim desenha a própria arquitetura que sustentará os serviços públicos digitais da região. Ao integrar essa estrutura, o Brasil vincula sua gestão pública e seus dados estratégicos a um stack autoritário cujo custo de transição futuro será proibitivo.

A hipocrisia se reflete também na crítica chinesa ao uso da “segurança nacional” para restringir tecnologias — uma alusão direta aos Estados Unidos. A China, sabemos, é pioneira na fusão civil-militar, bloqueia dados transfronteiriços e subsidia estatais sob esse exato pretexto. Além disso, o conceito de “controle humano” defendido por Pequim se traduz, na prática, no controle irrestrito do Estado sobre o cidadão, por meio de vigilância em massa e reconhecimento facial.

Diante desse cenário, a verdadeira soberania digital brasileira exige a construção de soluções próprias, alinhadas às nossas necessidades institucionais, culturais e aos valores democráticos. Em vez de se subordinar ao modelo de vigilância de Pequim, o Brasil deve priorizar o desenvolvimento de um modelo de linguagem em português (IA) por meio de alianças estratégicas com nações altamente confiáveis e tecnologicamente avançadas. Países como Japão e Taiwan, referências globais na produção de hardware de ponta e na pesquisa ética em inteligência artificial, representam parceiros ideais que merecem um olhar muito mais atento e prioritário por parte da diplomacia e do setor de inovação nacional.

A adesão à diplomacia de Xangai reflete uma ingenuidade estratégica perigosa. Uma governança de IA verdadeiramente inclusiva e democrática exige neutralidade pragmática, transparência algorítmica e a recusa firme em importar modelos fundamentados no controle e na vigilância estatal. Para garantir um futuro digital seguro e soberano, o Brasil deve escapar das mordaças e parcerias enganosas, fortalecendo cooperações éticas, preservando sua autonomia.

 (*) Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal. 

 

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Nova tarifa alcançará 3 mil produtos brasileiros e agrava condições de acesso das exportações aos EUA, diz Amcham

Da Redação (*)

Brasília – A decisão do governo dos Estados Unidos, anunciada em 23 de julho, de aplicar sobretaxas sobre determinadas importações originárias de 60 economias, incluindo uma alíquota de 12,5% para o Brasil, como resultado da investigação da Seção 301 sobre bens produzidos com trabalho forçado, agrava as condições de acesso das exportações brasileiras ao mercado norte-americano.

Com entrada em vigor em 24 de julho, a medida alcançará cerca de 3 mil produtos brasileiros, correspondentes a US$ 12,5 bilhões em exportações anuais aos Estados Unidos. Para 85,3% dessas vendas, equivalentes a US$ 10,7 bilhões, seus efeitos serão cumulativos com as tarifas de 25% anunciadas na semana anterior, resultando em sobretaxas de 37,5% — um dos níveis mais elevados aplicados pelos Estados Unidos a seus parceiros comerciais.

 Aprofundamento da retração do comércio bilateral

Esse cenário compromete ainda mais a competitividade das exportações brasileiras para os Estados Unidos e tende a aprofundar a trajetória de retração do comércio bilateral. Também poderá elevar custos para empresas e consumidores americanos, fragilizar cadeias produtivas integradas entre os dois países e afetar os investimentos bilaterais.

“A nova tarifa amplia os impactos negativos sobre as exportações brasileiras, com diversos setores sujeitos a sobretaxas expressivas de 37,5%. A reversão desse cenário passa necessariamente pela retomada das negociações entre os dois governos. O entendimento bilateral é o caminho mais eficaz para atender aos interesses de ambos os lados”, afirma Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.

A Amcham Brasil reitera que medidas de reciprocidade não contribuem para superar as divergências atuais e apresentam elevado risco de provocar uma escalada política e comercial, agravando os impactos econômicos para empresas, trabalhadores e consumidores brasileiros.

A entidade reforça o pedido de continuidade das negociações entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos como solução para reverter as sobretaxas, ampliar a previsibilidade para empresas e investidores e avançar na construção de uma agenda bilateral positiva.

(*) Com informações da Amcham

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EUA impõem nova tarifa de 12,5% a produtos brasileiros e eleva total do tarifaço a 37,5%

Da Redação (*)

Brasília – Os Estados Unidos anunciaram nesta quinta-feira (23) a aplicação de uma nova sobretaxa de 12,5% sobre produtos brasileiros, sob a alegação de que o Brasil não adota mecanismos eficazes para impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. A medida entra em vigor na madrugada desta sexta-feira (24).

A nova tarifa substitui a taxa global temporária de 10% aplicada desde fevereiro e se soma à sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, em vigor desde o último dia 22. Com isso, parte das exportações do Brasil para o mercado estadunidense poderá enfrentar tributação de até 37,5%.

decisão foi tomada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) após investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

Motivação

Segundo o governo americano, o Brasil integra o grupo de 54 países que não proíbem nem fiscalizam de forma efetiva a entrada de produtos fabricados com trabalho forçado em seus mercados internos.

Na avaliação do USTR, essa falha cria uma vantagem competitiva indevida, ao permitir a circulação de mercadorias produzidas a custos menores.

O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou que a prática prejudica empresas e trabalhadores estadunidenses.

“A falha de nossos parceiros comerciais em lidar com a importação de bens feitos com trabalho forçado é inaceitável. Isso força os trabalhadores americanos a competir em um campo desigual”, destacou Greer em comunicado.

Produtos 

O relatório afirma que, entre 2021 e 2025, o Brasil importou produtos associados ao trabalho forçado em cinco segmentos:

  1. alumínio;
  2. algodão;
  3. eletrônicos;
  4. baterias de lítio;
  5. tabaco.

Segundo o USTR, esses produtos poderiam entrar no mercado brasileiro com preços artificialmente reduzidos e, posteriormente, influenciar a competitividade das exportações nacionais.

O documento também menciona que, embora o Brasil participe de acordos internacionais de combate ao trabalho escravo e mantenha a chamada Lista Suja do Trabalho Escravo, o país não detém, na avaliação dos Estados Unidos, mecanismos considerados suficientes para impedir a importação desses bens.

Países

A investigação alcançou 60 parceiros comerciais dos Estados Unidos.

Além do Brasil, outros 53 países receberam a sobretaxa de 12,5%, entre eles China, Argentina, Austrália, Japão, Índia, Reino Unido e África do Sul.

Canadá, México, Equador, Indonésia, Paquistão e a União Europeia foram enquadrados em outra categoria e terão tarifa adicional de 10%, por já manterem mecanismos legais de controle, embora considerados insuficientes pelos EUA.

Tarifa 

A nova medida se soma à tarifa de 25% aplicada nesta semana sobre parte das exportações brasileiras, resultado de outra investigação conduzida pelo USTR.

Nesse processo, o governo estadunidense acusou o Brasil de adotar práticas comerciais consideradas desleais, citando questões como acesso ao mercado de etanol, propriedade intelectual, combate à corrupção, desmatamento ilegal e políticas comerciais preferenciais.

Com a nova decisão, empresas brasileiras poderão enfrentar uma carga tarifária total de até 37,5% em parte das exportações destinadas aos Estados Unidos.

As novas tarifas anunciadas nesta quinta substituem a taxa global de 10% anunciada por Trump em fevereiro deste ano. Na ocasião, a Suprema Corte dos Estados Unidos havia derrubado as “tarifas recíprocas” impostas pelo presidente estadunidense no ano passado.

Reação brasileira

Em nota, o governo brasileiro criticou a nova tarifa de 12,5% imposta pelos Estados Unidos e classificou a medida como “arbitrária” e “injustificada”. Segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), o Brasil apresentou ao governo norte-americano informações sobre sua legislação e os mecanismos de fiscalização para impedir a importação de produtos associados ao trabalho forçado, além de destacar o reconhecimento internacional do país no combate ao trabalho escravo.

O texto também informa que o governo pretende recorrer aos mecanismos previstos na Lei de Reciprocidade e levar o caso ao sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O governo brasileiro já havia contestado as conclusões da investigação. Em manifestação anterior, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que eventuais sanções seriam desproporcionais e defendeu que o país mantém legislação e acordos internacionais voltados ao combate ao trabalho forçado.

Segundo o chanceler, o Brasil dispõe de mecanismos de fiscalização e cooperação internacional para impedir a circulação de produtos produzidos em condições análogas à escravidão.

Enquanto avalia uma resposta diplomática, o governo mantém medidas de apoio às empresas exportadoras afetadas pelas tarifas americanas por meio do Plano Brasil Soberano, que prevê linhas de crédito e incentivo à abertura de novos mercados.

(*) Com informações da Agência Brasil

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Tarifaço dos EUA sobre o Brasil tem motivação política e pode elevar risco-país, avalia gestor

Para Marcelo Cabral, gestor de investimentos e fundador da Stratton Capital, em Nova York, medida tem relação com a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China. Segundo o especialista, o anúncio às vésperas das eleições também não é coincidência

Da Redação

Basília – A nova rodada de tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil tem, na avaliação de Marcelo Cabral, gestor de investimentos e fundador da Stratton Capital, sediada em Nova York, uma motivação muito mais política e geopolítica do que econômica. Para ele, os investidores americanos compreendem que as medidas tarifárias são utilizadas como instrumento de pressão e estão relacionadas à crescente aproximação econômica do Brasil com a China.

“Os investidores americanos sabem perfeitamente que as tarifas que estão sendo impostas sobre o Brasil são um instrumento de pressão política que tem pouco a ver com o racional econômico, até porque os Estados Unidos têm um superavit comercial significativo com o Brasil“, afirma o gestor.

Segundo Cabral, embora a narrativa oficial dos Estados Unidos apresente justificativas técnicas para as tarifas, o movimento está inserido em um contexto mais amplo de disputa pela influência econômica e geopolítica global. “Não há dúvidas que é evidente que as tarifas são parte da resposta americana à crescente integração econômica do Brasil com a China e à retórica do governo brasileiro sobre a necessidade de reduzir o papel do dólar no comércio internacional”.

Alerta contra alinhamento com a China

Para o fundador da Stratton Capital, a estratégia do governo de Donald Trump também tem como objetivo enviar um sinal a outros países sobre os possíveis custos econômicos de um alinhamento mais próximo com a China. “A visão de Trump é clara. A China e seus países alinhados, dentre os quais, na perspectiva de Washington, figura o Brasil, representam uma ameaça à posição dos EUA com potência econômica hegemônica global e uma possível ameaça à segurança nacional americana”, opina o gestor.

Nesse cenário, Cabral avalia que uma eventual reação brasileira, como a ativação da Lei de Reciprocidade e a possibilidade de suspensão de obrigações relacionadas à propriedade intelectual, ainda não está totalmente incorporada aos preços dos ativos brasileiros negociados no exterior.

“Na minha leitura, é uma questão de tempo. Ao longo do último ano, houve mudanças na posição dos EUA e aconteceram idas e vindas entre os dois países. À medida que a situação for se delineando de forma mais clara, o aumento do risco-Brasil será refletido no mercado,”, diz.

Apesar dos potenciais efeitos das tarifas sobre setores americanos que dependem de produtos brasileiros, Cabral avalia que o custo político doméstico da medida tende a ser limitado. “O principal custo político interno vem do impacto das tarifas na inflação americana. Para minimizar esse impacto, os Estados Unidos isentaram estrategicamente produtos cuja substituição por produção doméstica é mais difícil, como café, carne bovina, petróleo bruto e componentes aeroespaciais (Embraer). Neste cenário, o custo político deve ser pequeno”, comenta.

O gestor também chama atenção para a diferença entre os fluxos comerciais dos Estados Unidos com Brasil e China. Segundo ele, os americanos importam cerca de US$ 290 bilhões da China, contra aproximadamente US$ 45 bilhões do Brasil. Mesmo diante de uma relação comercial muito maior com os chineses, Trump elevou a tarifa média dos produtos chineses de 10,9% para 29,6%.

Impacto nas eleições presidenciais brasileiras

Outro ponto é o momento escolhido para o anúncio das tarifas, realizado às vésperas do ciclo eleitoral brasileiro de 2026. Para Cabral, o calendário não é uma coincidência e reforça a percepção de que a medida também funciona como instrumento de pressão política sobre o governo brasileiro: “O timing expõe a lógica estrutural por trás da medida. A tarifa foi anunciada em 15 de julho com prazo limite para a decisão a menos de três meses do primeiro turno, o que reforça a interpretação de que as tarifas estão sendo usadas como alavanca de pressão em um momento de vulnerabilidade eleitoral do governo brasileiro”.

Diante desse cenário, uma eventual intensificação da aproximação brasileira com países asiáticos não necessariamente representaria um aumento imediato do risco político para os investidores americanos. Cabral ressalta que países como Japão, Coreia do Sul e Taiwan são aliados dos Estados Unidos. Para ele, o principal fator de atenção está relacionado especificamente à possibilidade de aumento da influência econômica e política da China sobre o Brasil.

Para o gestor, portanto, o principal impacto do tarifaço sobre a percepção dos investidores globais não está necessariamente no efeito direto sobre o comércio bilateral. “O risco mais relevante não é o impacto comercial direto das tarifas, mas o sinal de que o risco-país brasileiro pode incorporar, de forma permanente, uma

 

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Tarifas reforçam necessidade de diversificar mercados e ampliar acordos comerciais, diz especialista

Para Marcelo Vitali, diretor da How2Go, empresas brasileiras com exportações de maior valor agregado são as mais expostas ao aumento de barreiras comerciais e precisam reduzir a dependência de poucos mercados

Da Redação

Brasília – O aumento de tarifas comerciais por parte de diferentes países voltou a colocar em evidência os desafios do Brasil para ampliar sua inserção no comércio internacional. Na avaliação de Marcelo Vitali, diretor da How2Go, além dos impactos imediatos sobre as exportações, o cenário reforça a necessidade de acelerar a diversificação de mercados e avançar em novos acordos comerciais para reduzir a dependência de poucos parceiros.

Segundo o executivo, embora tarifas sejam tradicionalmente justificadas pela proteção de setores estratégicos, pela redução de déficits comerciais ou pelo combate a práticas consideradas desleais, seus efeitos costumam se espalhar por toda a cadeia produtiva, afetando a competitividade das empresas e elevando custos.

No caso das tarifas impostas pelos Estados Unidos, Vitali destaca que o maior impacto recai sobre a indústria de maior valor agregado.

“Estamos falando de máquinas, equipamentos e outros bens industriais que fazem parte de cadeias específicas de produção. Diferentemente de muitas commodities, esses produtos não encontram novos compradores com facilidade nem podem ser redirecionados rapidamente para outros mercados. Por isso, a indústria de transformação tende a ser a mais afetada”, afirma.

Diversificação de parceiros comerciais

Para o diretor da How2Go, o atual cenário evidencia uma fragilidade histórica do comércio exterior brasileiro. “O Brasil ainda é uma economia relativamente fechada quando comparado a outros países com perfil semelhante. Nos últimos anos, houve avanços importantes, como o acordo entre Mercosul e União Europeia e as negociações com Canadá e Japão, mas ainda estamos atrasados na diversificação de parceiros comerciais. Ampliar o acesso a novos mercados é fundamental para reduzir a exposição a decisões tomadas por um único comprador.”

Vitali ressalta que o aumento das barreiras comerciais também pode comprometer o crescimento do comércio internacional ao reduzir a previsibilidade para empresas e investidores. Nesse contexto, diversificar mercados deixa de ser apenas uma estratégia de expansão e passa a ser uma medida de mitigação de riscos.

Ao analisar especificamente as tarifas adotadas pelos Estados Unidos, o executivo avalia que a decisão vai além da lógica econômica tradicional.

“O argumento técnico perde força porque, historicamente, os Estados Unidos mantêm superávit na relação comercial com o Brasil, ao contrário do que ocorre com diversos outros países. Isso enfraquece a justificativa econômica para a adoção das tarifas e reforça a percepção de que a medida está inserida em um contexto político mais amplo”, conclui

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Nova tarifa provoca forte queda nas exportações de uvas brasileiras para os Estados Unidos

Desde o tarifaço do ano passado, produto já vinha perdendo mercado no país; no primeiro semestre de 2025 os Estados Unidos compraram 15% da uva do Brasil e no mesmo período deste ano o índice caiu para 5%

Da Redação (*)

Brasília – A tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros a partir desta semana, 22 de julho, coloca ainda mais pressão sobre um já combalido comércio entre os dois países. A uva brasileira é um dos itens do agronegócio que está na lista de sobretaxa e a tributação total sobre a fruta será de 35%. Desde o tarifaço do ano passado, o produto já vinha perdendo mercado no país norte-americano. No primeiro semestre de 2025, os EUA compraram 15% da uva exportada pelo Brasil. No mesmo período deste ano, o índice caiu para 5%.

Em 2024, os Estados Unidos consumiram 23% das uvas exportadas pelo Brasil, que somaram 58,9 mil toneladas, e em 2023 compraram 27% da fruta enviada ao exterior, total de 72,2 mil toneladas. Os dados são do Comex, plataforma de exportações do governo federal.

A retração vem ocorrendo desde o segundo semestre do ano passado, quando os EUA decretaram o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, em agosto. Mesmo após a revogação dessa sobretaxa, em novembro, a venda de uvas para o país norte-americano ainda não havia sido estabilizada, como mostram os números do primeiro semestre deste ano, quando o Brasil embarcou 415,4 toneladas da fruta para o país, ante 1,6 mil toneladas enviadas no mesmo período do ano anterior.

O cenário de queda deve se manter com a nova medida dos Estados Unidos de sobretaxa de 25% sobre os 10% já em vigor. “A nova tarifa evidencia que o mercado americano vive um ambiente de elevada volatilidade regulatória. Para o exportador, isso reforça a importância de diversificar mercados e manter padrões de rastreabilidade e competitividade para reduzir riscos comerciais futuros”, afirma o head da Ascenza Brasil, Hugo Centurion.

O melão e a melancia são outras frutas sobretaxadas pelos EUA em 25%, mas o país não está entre os maiores compradores delas, que têm na Europa o maior mercado. Em 2025, o país norte-americano comprou 0,8% do melão exportado pelo Brasil e 1% da melancia. Os principais compradores do melão brasileiro são Países Baixos (Holanda), Espanha, Reino Unido e Canadá. No caso da melancia, os maiores mercados estão no Reino Unido, Países Baixos, Espanha e Argentina.

Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a nova tarifa adicional de 25% imposta pelo governo dos Estados Unidos vai afetar cerca de 36,5% das exportações do agronegócio brasileiro, enquanto 63,5% do agro entraram na lista de exceções, sem tarifa. Itens importantes da pauta de exportação, como açúcar, arroz, madeira e ovos também estão sujeitos à alíquota de 25%.

CNA defende diálogo na busca de solução para tarifaço

A entidade aponta que a medida causa perda de competitividade e sugere a continuidade do diálogo para fortalecer as relações comerciais entre os dois países. A Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) avalia que a sobretaxa reduz significativamente a competitividade da fruta brasileira nos EUA e traz desafios para a cadeia produtiva.

A decisão dos Estados Unidos de sobretaxar produtos importados não é exclusiva para o Brasil. Nesta semana, o país criou tarifa de 50% sobre o vizinho Canadá, com previsão de entrar em vigor no dia 19 de agosto. A justificativa apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) e pela Casa Branca foi a “retaliação e discriminação” generalizada do Canadá contra o comércio e produtos dos Estados Unidos.

Produtos Isentos da nova tarifa

Entre os produtos do agronegócio brasileiro isentos da tarifa de 25% dos EUA estão café, carne bovina, suco de laranja, laranja in natura, outras frutas e itens considerados estratégicos para o abastecimento e para a indústria dos Estados Unidos. Segundo o USTR, a exclusão ocorreu porque esses produtos têm grande importância para a cadeia produtiva e para os consumidores americanos, e não existem em oferta suficiente no mercado interno dos EUA.

O governo americano argumenta que o novo tarifário responde a práticas desfavoráveis ao comércio dos Estados Unidos, como acesso ao mercado, propriedade intelectual, comércio digital, combate à corrupção e desmatamento ilegal. O tarifaço, portanto, não é generalizado, afeta em maior parte as exportações industriais brasileiras e preserva produtos agropecuários e matérias-primas considerados essenciais para a economia americana.

A sobretaxa de 25% será cobrada no momento da entrada dos produtos brasileiros nos Estados Unidos, elevando o custo de importação para compradores norte-americanos. Na prática, a medida reduz a competitividade dos itens tarifados em relação aos produtos fabricados nos EUA ou importados de outros países que não têm a mesma tarifa.

Mesmo sem ser o principal destino das exportações agropecuárias brasileiras, os Estados Unidos ocupam posição estratégica para diversas cadeias produtivas. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que, em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 11,4 bilhões para o mercado norte-americano, com destaque para café, produtos florestais, carnes, suco de laranja, açúcar, frutas e tabaco. Os EUA estão entre os três maiores compradores do agro brasileiro, com China e União Europeia.

No caso do café, os Estados Unidos permanecem como relevante destino do produto brasileiro. Segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), a exclusão do café, inclusive solúvel, evita impactos sobre um mercado que movimenta entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões por ano para a cadeia cafeeira nacional.

Reação à nova sobretaxa

Diante das tarifas impostas no ano passado pelos EUA contra o Brasil, o setor exportador respondeu intensificando negociações comerciais, diversificando mercados e antecipando embarques e reforçando a atuação conjunta entre entidades brasileiras e associações importadoras norte-americanas. Essas articulações contribuíram para a ampliação das listas de exceção e para a manutenção dos principais produtos agropecuários brasileiros fora da nova rodada de tarifas.

Analistas observam que a nova sobretaxa reforça um cenário internacional de crescente uso de instrumentos comerciais como ferramenta de política econômica. “Para os exportadores brasileiros, a medida evidencia a necessidade de acompanhar continuamente as mudanças regulatórias e ampliar a diversificação dos destinos das exportações”, afirma o head da Ascenza.

Centurion comenta que os produtores de uva e outros produtos sobretaxados devem continuar seguindo as medidas que adotaram no tarifaço do ano passado, como diversificação dos destinos, ampliação de vendas para Europa e Canadá, prospecção de novos mercados sul-americanos e negociação com redes varejistas internacionais. Apesar da tarifa de 50% de 2025, não houve colapso das exportações, porque parte dos embarques foi redirecionada para outros destinos.

O head da Ascenza diz ainda que os exportadores podem investir na produção para buscar mercados premium, aumentar certificações internacionais, negociar contratos de longo prazo, concentrar embarques em períodos de menor oferta mundial e investir em mercados como Ásia e Oriente Médio.

(*) Com informações da Ascenza Brasil

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Tarifaço de 25% dos EUA sobre exportações brasileiras começa a valer e Brasil busca diversificar mercados

Brasil aposta em diversificar mercados para contornar restrições

Da Redação (*)

Brasília – Começou a vigorar nesta quarta-feira (22) a tarifa adicional de 25% aplicada pelo governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros. O tarifaço atinge 19% das exportações do Brasil para os Estados Unidos.

A estimativa do valor total das exportações afetadas varia entre US$ 7,2 bilhões e US$ 11 bilhões, segundo cálculos da Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Armcham Brasil).

Entre os 2,3 mil produtos afetados, a maioria integra os setores de eletroeletrônicos; máquinas e equipamentos; autopeças e calçados. Praticamente, 700 produtos estão isentos da tarifa, número superior aos 615 previstos durante as negociações.

Segundo o governo, o mercado estadunidense é o principal destino das exportações brasileiras de eletroeletrônicos. O país responde por cerca de um quarto das vendas externas do setor de máquinas e equipamentos.

Os estados de São Paulo (SP) e Santa Catarina (SC) concentram 52% do impacto do tarifaço dos EUA, com o estado economicamente mais forte do país concentrando, sozinho, 41,6% do total do valor das exportações afetadas. Santa Catarina, porém, tem situação mais crítica, com 68% das exportações aos EUA atingidas pela medida da Casa Branca, segundo dados da Apex-Brasil.

Políticas brasileiras

O tarifaço adotado pelo governo Trump baseou-se em um processo conduzido pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês), que alega que o Brasil adota práticas “desleais” no comércio com os Estados Unidos.

Os estadunidenses elencaram seis temas para decidir sobre a taxação:

  1. pagamentos eletrônicos (pix) e regulação de redes sociais;
  2. desmatamento ilegal;
  3. acesso ao mercado de etanol;
  4. combate à corrupção;
  5. proteção da propriedade intelectual;
  6. acordos preferenciais com México e Índia.

O governo brasileiro rejeita as justificativas usadas para a taxação e argumenta que elas têm motivação política e não condizem com a realidade. Segundo o ministro das relações exteriores, Mauro Vieira, os negociadores dos EUA pediam a abertura total de mercados sem contrapartida.

Busca de novos mercados

Em resposta ao tarifaço, o governo brasileiro anunciou que retomará o programa de apoio aos setores afetados com linha de crédito para capital de giro, investimentos e com apoio para escoamento de produtos a outros clientes e países. Avalia também flexibilizar temporariamente regras do regime de isenção, suspensão ou restituição de tributos para insumos usados na produção de mercadorias para exportação.

Já a Apex-Brasil prevê a divulgação, em agosto, de um plano de R$ 130 milhões para diversificar as exportações do Brasil, principalmente, para União Europeia, países que integram a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), como Indonésia, Malásia, Tailândia, Vietnã, além de nações da Ásia Central, como Cazaquistão e Uzbequistão.

(*) Com informações da Agência Brasil

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