Investimento em ESG desacelera no Brasil e 26% dos executivos projetam redução nos próximos 12 meses

Dados acendem alerta sobre desaceleração da agenda ESG no ambiente corporativo brasileiro

Da Redação (*)

Brasília – A agenda ESG (Ambiental, Social e Governança) passa por um momento de desaceleração no ambiente corporativo brasileiro. Dados da pesquisa “Líderes de Negócios & ESG 2026”, realizada pela Data-Makers, mostram que 26% dos executivos preveem reduzir os investimentos na área nos próximos 12 meses, enquanto 21% das empresas já cancelaram iniciativas relacionadas ao tema e outras 35% decidiram suspender temporariamente projetos em andamento.

Para a Associação Brasileira de Infraestrutura da Qualidade (ABRIQ), os números representam um sinal de alerta. Embora 58% das organizações afirmem que manterão seus investimentos estáveis, o crescimento do ceticismo em torno do ESG pode comprometer avanços em eficiência, inovação, gestão de riscos e competitividade, justamente em um cenário no qual consumidores, investidores e mercados internacionais exigem cada vez mais transparência e responsabilidade corporativa.

“Os dados mostram uma desaceleração preocupante. Quando bem estruturadas, as práticas ESG deixam de ser um centro de custo e passam a gerar valor para as empresas e para a sociedade. Elas reduzem riscos, fortalecem a governança, aumentam a eficiência operacional e contribuem para o desenvolvimento econômico e social”, afirma Alexandre Xavier, vice-presidente de ESG da ABRIQ.

Segundo a entidade, um dos fatores que contribui para a percepção equivocada sobre a agenda ESG é a ausência de processos estruturados capazes de transformar compromissos em resultados mensuráveis. Nesse contexto, as normas técnicas e os sistemas de gestão desempenham papel estratégico ao estabelecer critérios objetivos, metodologias reconhecidas internacionalmente e mecanismos de melhoria contínua.

Implementação de práticas consistentes

Normas como a ISO 14001 (gestão ambiental), a ISO 9001 (gestão da qualidade), a ISO 45001 (saúde e segurança ocupacional), a ISO 37001 (sistema de gestão antissuborno) e a ABNT NBR 16001 (responsabilidade social) permitem que as organizações implementem práticas consistentes, monitorem indicadores, avaliem o desempenho e demonstrem, de forma transparente e auditável, seus resultados nas dimensões ambiental, social e de governança.

A adoção desses referenciais também pode promover ganhos econômicos concretos, como redução de desperdícios, maior eficiência dos processos, melhor gestão de riscos e aumento da produtividade, além de contribuir para a credibilidade das organizações e facilitar o acesso a mercados nacionais e internacionais.

“ESG não deve ser tratado como uma tendência passageira ou uma ação de marketing. Quando incorporado à estratégia e apoiado por instrumentos técnicos, torna-se uma ferramenta de geração de valor e de fortalecimento da gestão. Interromper essa jornada pode representar um risco à competitividade em um momento no qual a sustentabilidade se consolida como requisito de mercado”, destaca Xavier.

Infraestrutura da Qualidade

Para a ABRIQ, a Infraestrutura da Qualidade, formada por normalização, metrologia, acreditação, avaliação da conformidade, regulamentação técnica e vigilância de mercado, oferece suporte para que as estratégias ESG avancem de compromissos institucionais para resultados verificáveis. Esses instrumentos contribuem para a rastreabilidade das ações, a avaliação de desempenho e a demonstração objetiva dos resultados alcançados.

“O crescimento do número de empresas que reduzem ou suspendem iniciativas ESG deve servir como um alerta. O desafio não é abandonar essa agenda, mas aprimorar sua estruturação e sua integração à estratégia dos negócios. A Infraestrutura da Qualidade contribui para esse processo ao oferecer instrumentos que permitem estabelecer critérios, acompanhar o desempenho e demonstrar resultados de forma confiável”, conclui o vice-presidente de ESG da ABRIQ.

(*) Com informações da ABRIQ
 

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Forte alta nas importações de calçados asiáticos preocupa calçadistas e impõe desafios à geração de empregos no setor

 

 

Da Redação (*)

Brasília – Dados elaborados pela Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), com base nos números da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), demonstram o avanço das importações de calçados, em especial provenientes da Ásia. No primeiro semestre, foram importados 25,9 milhões de pares, pelos quais foram pagos US$ 307 milhões, incrementos de 15,9% e 13%, respectivamente, ante o mesmo intervalo do ano passado. No recorte de junho, as importações somaram 3 milhões de pares e US$ 48,1 milhões, altas de 1% e 7,6%, respectivamente, no comparativo com o mesmo mês de 2025.

O presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, ressalta que o avanço das importações vem preocupando a indústria nacional. “A indústria brasileira enfrenta simultaneamente um mercado interno pressionado, perda de receita externa e aumento da concorrência importada em detrimento do calçado brasileiro, muitas vezes sob práticas de comércio consideradas desleais pela Organização Mundial de Comércio (OMC).”, afirma, ressaltando que a entidade vem alertando o Governo Federal sobre os riscos da “importação predatória”.

Nesse contexto, o dirigente acrescenta que, “somente no primeiro semestre do ano, conforme estimativa da Abicalçados, o setor deixou de criar 7,8 mil postos de trabalho diretos em razão do aumento expressivo das importações”.

A pressão importadora segue concentrada na Ásia, que respondeu por 87,2% dos pares importados pelo Brasil no semestre. A principal origem dos calçados importados foi a China, de onde vieram 9,7 milhões de pares, pelos quais foram pagos US$ 26,5 milhões, altas de 27,4% em volume e de 13,3% em valores no comparativo com o mesmo período do ano passado. No recorte de junho, as importações chinesas somaram 408,43 mil pares e US$ 4,14 milhões, altas de 2,3% e 22,9%, respectivamente, ante o mesmo ínterim de 2025

A segunda origem dos calçados importados pelo Brasil no período também é asiática. Entre janeiro e junho, o Vietnã embarcou para o País 6,83 milhões de pares por US$ 150,57 milhões, incrementos de 5,2% e 17,9%, respectivamente, no comparativo com o mesmo período do ano passado. No recorte de junho, as importações do Vietnã somaram 1,23 milhão de pares e US$ 26 milhões, elevações de 4,1% em volume e de 9,8% em receita em relação ao mesmo mês de 2025.

Fechando o ranking dos países que mais importaram para o Brasil no semestre, mais um país asiático. Na primeira parte do ano, a Indonésia exportou ao País 3,68 milhões de pares por US$ 69,24 milhões, incrementos de 14,2% em volume e de 1,9% em receita na relação com intervalo correspondente do ano passado. Já no recorte de junho, as importações da Indonésia somaram 413,24 mil pares e US$ 7,28 milhões, quedas de 37,4% e 18,8%, respectivamente, no comparativo com o mesmo mês de 2025.

Em partes – cabedais, solas, saltos, palmilhas etc.  as importações do semestre somaram US$ 26,48 milhões, 19,4% mais do que no mesmo período do ano passado. As principais origens foram China, Vietnã e Paraguai.

Exportações caem 17,9%
Se por um lado, as importações seguem tendência de elevação, as exportações de calçados assumem o caminho contrário. Combinação que resultou em uma queda de 55,1% na balança comercial do setor no primeiro semestre, o menor resultado para um primeiro semestre na série histórica da base, iniciada em 1997.

No primeiro semestre, as exportações de calçados somaram 49 milhões de pares e US$ 408,2 milhões, quedas tanto em volume (-7%) quanto em receita (-17,9%) em relação ao mesmo período do ano passado. No recorte de junho, foram embarcados 8,1 milhões de pares por US$ 59,16 milhões, incremento de 18,1% em volume e queda de 15,7% em receita.

Entre janeiro e junho, mesmo com toda a instabilidade provocada pelas tarifas de importação aplicadas ao produto brasileiro, o principal destino dos embarques foi os Estados Unidos. No período, foram embarcados para lá 5,6 milhões de pares, que geraram US$ 85,25 milhões, quedas tanto em volume (-3,6%) quanto em receita (-23,6%) em relação ao mesmo intervalo de 2025. No recorte de junho, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 20,7% em volume (805,56 mil pares) e 17,9% em receita (US$ 17 milhões) em relação ao intervalo correspondente do ano passado, ainda refletindo a comparação com uma base elevada do mesmo mês do ano anterior.

Na sequência, entre os destinos, aparece a Argentina. No semestre, os hermanos importaram 2,72 milhões de pares verde-amarelos, pelos quais foram pagos US$ 43,5 milhões, quedas tanto em volume (-57,5%) quanto em receita (-58,1%) em relação ao mesmo período do ano passado. No recorte de junho, as exportações brasileiras para a Argentina registraram 303,5 mil pares e US$ 5,68 milhões, quedas de 54,4% em volume e 43,5% em receita no comparativo com o mesmo mês de 2025.

Apesar do quadro negativo, alguns mercados ajudaram a amortecer a queda. O Paraguai foi o terceiro destino das exportações brasileiras do primeiro semestre, com a soma de 4,18 milhões de pares e US$ 22,88 milhões. Apesar da queda de 3,8% em volume, houve aumento de 13,1% em receita na relação com o mesmo intervalo do ano passado. No recorte de junho, as importações paraguaias de calçados brasileiros somaram 582,55 mil pares e US$ 2,67 milhões, incrementos de 36,9% e 5,2%, respectivamente, no comparativo com o mesmo mês de 2025.

Estados
O maior exportador de calçados do Brasil no primeiro semestre foi o Rio Grande do Sul, que no período embarcou 17,65 milhões de pares, que geraram US$ 201,83 milhões, incremento de 10,6% em volume e queda de 13,2% em receita ante o mesmo ínterim do ano passado.

Na sequência aparece o Ceará. No primeiro semestre, partiram das fábricas cearenses 14 milhões de pares, que geraram US$ 76,86 milhões, quedas de 19,3% e 26,3%, respectivamente, no comparativo com o mesmo intervalo do ano passado.

Fechando o ranking de estados exportadores aparece São Paulo, de onde partiram, no semestre, 2,9 milhões de pares por US$ 41,83 milhões, quedas de 20,6% em volume e de 21% em receita em relação ao mesmo período de 2025.

(*) Com informações da Abicalçados

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A capital dos eventos e das oportunidades para empreender

Alessandra Andrade (*)

São Paulo consolidou-se como um dos maiores polos de eventos do mundo. Em apenas dez anos, a arrecadação do ISS proveniente do setor cresceu 672%, saltando de R$ 41,8 milhões em 2015 para mais de R$ 323,5 milhões em 2025. Festivais, feiras, congressos, encontros esportivos e culturais tornaram-se fortes vetores de desenvolvimento, geração de empregos e fortalecimento da arrecadação.

Iniciativas da Prefeitura, como o Calendário de Eventos Estratégicos, ampliado de 25 em 2022 para 75 atrações atualmente, ajudaram a posicionar nossa cidade como líder brasileira do segmento.

Aumentando a programação anual, teremos a primeira edição do São Paulo Beyond Business (SP2B), de 9 a 16 de agosto de 2026, no Parque Ibirapuera, cujo propósito é promover o empreendedorismo. Nossa expectativa é grande de que se transforme em plataforma permanente de geração de ideias, conexão de pessoas e oportunidades, como o SXSW, de Austin, que o inspirou.

Como paulistana, vejo nesse evento elementos que dialogam com a identidade da cidade de São Paulo. Afinal, a cidade prosperou justamente porque aprendeu a transformar diversidade em inovação e trabalho em progresso.

O SP2B terá mais de mil horas de programação, dois mil palestrantes e 750 painéis. Os pontos mais relevantes, a meu ver, são as conversas que darão origem a novos negócios, as parcerias que poderão surgir de encontros inesperados e os projetos que terão espaço para amadurecer. Sim, eventos disruptivos constroem legados!

Com a coprodução e o apoio institucional da São Paulo Negócios, em sua missão de promover o fomento econômico e a internacionalização da cidade, o SP2B soma-se ao significativo calendário que destaca São Paulo como um dos principais centros globais de eventos, negócios, inovação e cultura.

(*) Alessandra Andrade é presidente da São Paulo Negócios, agência de promoção de investimentos e exportações.

 

 

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Comércio Exterior de Uberlândia cresce 77,2% no semestre e exportações se aproximam do valor alcançado em todo o ano de 2025

Da Redação

Brasília – No primeiro semestre deste ano, a corrente de comércio (exportação+importação) de Uberlândia se aproximou do valor registrado em todo o ano de 2025, com destaque para o forte aumento das exportações, que cresceram 77,2% comparativamente com igual período do ano passado.

De janeiro a junho, as vendas externas do município totalizaram US$ 782 milhões, contra US$ 857 milhões em produtos embarcados para o exterior em 2025, a melhor marca alcançada pelas exportações uberlandenses desde 1997, ano de início da série histórica computada pelo Comex Stat, plataforma do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Na opinião do prefeito de Uberlândia, Paulo Sérgio, o retorno ao crescimento acentuado do superávit comercial uberlandense tem sido auxiliado pela nova diretriz estabelecida pela gestão municipal: “desde 2025, a Prefeitura vem intensificando um trabalho estratégico de prospecção {de mercados} no exterior, como forma de não apenas atrair novos investimentos para o município, mas também proporcionar a ampliação dos negócios das empresas locais junto a outros países. Portanto, esses recordes recentes tendem a refletir a consolidação de Uberlândia como um porto seguro para negócios”, declarou.

Em contrapartida, as importações recuaram 22,0% para US$ 100 milhões, o que fez com que a corrente de comércio do município somasse US$ 882 milhões, proporcionando ao município um superávit de US$ 682 milhões, recorde para os seis primeiros meses de um ano.

Com os embarques em forte expansão, Uberlândia figurou na quarta posição no ranking dos municípios mineiros que mais exportaram e o 38º. posto entre os maiores exportadores de todo o país. No tocante às importações, Uberlândia ocupou, respectivamente, a 5ª. e 179ª. posições.

China, e soja principais destino e produto das exportações

A exemplo do que acontece em relação ao Brasil como um todo, a China segue ocupando, com ampla margem, o posto de principal destino das exportações uberlandenses. Com um total de US$ 587 milhões (alta de 106,30% e em valores de US$ 302 milhões), a China absorveu 75% de todo o volume embarcado pelas empresas de Uberlândia para o exterior.

Além do gigante asiático, o Top 10 dos países de destino das exportações do município é integrado pelo Vietnã (US$ 40 milhões); Irã (US$ 16 milhões); Tailândia (US$ 13 milhões); Taiwan (US$ 12 milhões); Colômbia (US$ 11 milhões); Bangladesh (US$ 8 milhões); Emirados Árabes Unidos (US$ 7 milhões); Estados Unidos (US$ 6 milhões) e Países Baixos (US$ 5 milhões).

Nesse contexto é de se destacar o aumento de expressivos 176.773,20% nas exportações para os Países Baixos (Holanda), o que fez com que as exportações para o país, que é uma espécie de hub de entrada para a União Europeia, totalizassem US$ 5 milhões. Com a entrada em vigor do Acordo Mercosul-União Europeia, as exportações uberlandenses para o bloco europeu devem registrar crescimento expressivo nos próximos anos, avaliam especialistas do MDIC.

A soja é o carro-chefe das exportações uberlandenses e em seis meses as vendas da oleaginosa cresceram 88,2% para US$ 663 milhões, tendo a China como principal país de destino. Também se destacaram as exportações de carnes de aves (US$ 26 milhões); peles, couros, artigos de viagem, bolsas etc. (US$ 18 milhões); produtos das indústrias de alimentação (US$ 7 milhões); e charutos, cigarrilhas e cigarros (US$6 milhões).

Liderança chinesa também nas importações

Com números bem mais modestos que aqueles relativos às exportações, a China foi também o principal parceiro de Uberlândia nas importações.  A maior potência exportadora do planeta embarcou para o município mineiro produtos no total de US$ 28 milhões, equivalentes a uma participação de 28,0% no total importado pelas empresas uberlandenses no período.

A relação dos principais parceiros comerciais de Uberlândia no primeiro semestre do ano teve, além dos chineses, a participação dos Estados Unidos (US$ 19 milhões); Paraguai (US$ 9 milhões); Alemanha (US$ 3,5 milhões); Índia (US$ 3,1 milhões); Israel (US$ 3 milhões); Itália (US$ 2,9 milhões); Turquia (US$ 2,9 milhões); França (US$ 2,8 milhões); e Chile (US$ 2,5 milhões).

O arroz foi o principal produto importado por Uberlândia no semestre passado, com um total de US$ 9 milhões. A seguir, vieram misturas de substâncias odoríferas (US$ 8,3 milhões); pneumáticos novos (US$ 6,4 milhões); reagentes diagnósticos (US$ 5,5 milhões); aparelhos mecânicos (US$ 3,1 milhões); quadros, painéis, consoles e outros suportes (US$ 3 milhões); tabaco (US$ 2,8 milhões); plásticos (US$ 2,6 milhões); outras chapas, folhas, películas etc. (US$ 2,6 milhões); e malte, mesmo torrado (US$ 2,4 milhões).

 

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Tática guarani – país vizinho avança enquanto o Brasil perde competitividade

Márcio Coimbra (*)

O som do apito final e a explosão de alegria na cobrança do último pênalti contra a Alemanha coroaram uma das campanhas mais heroicas da história da Copa do Mundo. Mesmo depois de cair para a França, o Paraguai mostrou que determinação tática e pragmatismo estratégico conseguem derrubar gigantes. Curiosamente, a resiliência paraguaia em campo não foi construída de forma isolada: o time contou com o talento providencial de jogadores “importados”.

Fora das quatro linhas, no tablado do desenvolvimento industrial, o Paraguai repete a jogada ensaiada. O país opera um milagre econômico silencioso, atraindo um fluxo massivo de cérebros, capitais e fábricas brasileiras que cruzam a fronteira em busca de um ecossistema mais saudável, estável e livre para prosperar.

Essa transformação ganhou tração inédita com o governo de Santiago Peña. Sob uma firme postura de liberdade econômica, desregulamentação e desburocratização, o Paraguai posicionou-se como o porto seguro do capital privado na América do Sul. O segredo reside na simplicidade e estabilidade das regras. Enquanto o Brasil patina, o país vizinho oferece o modelo “Triplo 10”: 10% de Imposto de Renda Empresarial, 10% de Imposto de Renda Pessoal e 10% de IVA.

Além disso, a Lei de Maquila garante segurança fiscal por até vinte anos e permite que indústrias importem componentes com imposto suspenso, processem no país e reexportem pagando apenas 1% sobre o valor agregado. Simulações mostram que essa engenharia tributária permite obter um lucro até 150% maior no Paraguai em comparação ao complexo ambiente brasileiro.

Além disso, a aliança estratégica com Taiwan converteu fidelidade geopolítica em investimentos tecnológicos, trazendo parques de semicondutores e ônibus elétricos. Na energia, a gestão da cota excedente de Itaipu garante eletricidade até 60% mais barata ao setor manufatureiro.

No quesito mão de obra, a flexibilidade regulatória esmaga o engessamento da legislação brasileira. O custo de um funcionário formalizado é de 30% a 40% menor do que sob a CLT. A jornada padrão paraguaia é de 48 horas semanais, gerando 416 horas adicionais por ano — cerca de 52 dias úteis de vantagem competitiva anual por trabalhador.

Diante desse ecossistema, o Brasil assiste a um êxodo industrial sem precedentes. Desde 2007, 232 empresas brasileiras migraram para lá via maquila, representando 70% do parque multinacional instalado e transferindo mais de 25.000 empregos diretos. As dez maiores maquiladoras brasileiras geraram US$ 1,3 bilhão em exportações e aportes que superam US$ 182 milhões. No setor têxtil, 89 indústrias já operam além-fronteira, pois produzir no Brasil, onde a burocracia consome até 90% do custo, tornou-se inviável. Até multinacionais transferiram centros administrativos de São Paulo para Assunção.

O diagnóstico é claro e doloroso: enquanto o Paraguai abraça a liberdade econômica com inteligência rumo ao futuro, o Brasil insiste em fórmulas arcaicas, assistindo suas empresas marcarem gols na concorrência, mas vestindo o fardamento do nosso vizinho.

 (*) Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal. 

 

 

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Da coleta à decisão: como os dados estão redefinindo a experiência do cliente

* Aline Pupim (*)

Durante muito tempo, os dados foram tratados como um subproduto das operações, com um grande volume de informações subutilizadas, com registros gerados a partir de transações, armazenados em diferentes sistemas e ferramentas, e pouco explorados de forma estratégica.

Hoje os dados deixaram de ser apenas históricos para se tornarem uma das principais alavancas na construção de experiências relevantes e duradouras, e a base para estratégias que antecipam necessidades e potencializam resultados. Nesse contexto, além de entender o que aconteceu, as companhias passaram a buscar respostas para o que está acontecendo no presente, e principalmente, o que ainda irá acontecer.

Segundo estudo da McKinsey & Company, empresas que utilizam dados de forma avançada para a personalização podem gerar até 40% mais receita nessas iniciativas, além de melhorar significativamente a satisfação dos clientes. Esse movimento reflete uma mudança mais profunda: a transição de um modelo orientado à conversão e volume, para uma abordagem centrada na jornada do cliente, em que cada interação deixa de ser um evento isolado e passa a compor uma relação contínua, fortalecendo a reputação e acelerando o sucesso do negócio. E é justamente aqui que os dados ganham protagonismo.

No mercado brasileiro, essa evolução tem sido impulsionada pelo avanço tecnológico e pelo aumento da expectativa (ou nível de exigência) dos consumidores. Um estudo da Salesforce mostra que 73% dos consumidores esperam que as empresas compreendam suas necessidades e expectativas, mas apenas pouco mais da metade acredita que isso realmente acontece, evidenciando uma lacuna clara entre intenção e entrega, ou expectativa e realidade.

Empresas que antes operavam com dados fragmentados hoje buscam consolidar informações, conectar canais e construir uma visão mais completa do cliente, não apenas para analisar, mas para agir.

Essa transformação, no entanto, não acontece de forma espontânea, e se sustenta em três pilares fundamentais.

O primeiro deles é a integração de dados. Unificar informações de diferentes pontos de contato é um grande desafio, mas deixa de ser um diferencial e passa a ser uma condição básica para garantir consistência na experiência. Sem isso, o cliente continua sendo tratado de forma fragmentada, e percebe isso rapidamente.

Já o segundo pilar é a inteligência aplicada à personalização. Dados só geram valor quando são convertidos em decisões. É necessário sair da análise descritiva e avançar para uma atuação contextual, onde as comunicações, ofertas e jornadas se adaptam ao comportamento e ao momento de cada cliente. De acordo com estudo da Epsilon, 80% dos consumidores têm maior propensão a comprar de marcas que oferecem experiências personalizadas, reforçando que a personalização deixou de ser diferencial e passou a ser expectativa do consumidor.

E o terceiro pilar é a tecnologia como viabilizadora da experiência. Ferramentas de análise em tempo real, automação de jornadas e uso de inteligência artificial permitem escalar personalização sem perder eficiência, desde que aplicadas com critério.

Mas como toda mudança de comportamento é sempre desafiadora, as organizações encontram barreiras relevantes quando decidem atuar de maneira orientada por dados. Qualidade e governança de dados são pontos críticos. Afinal, não existe experiência consistente construída sobre bases inconsistentes. Um levantamento da Gartner indica que a má qualidade de dados custa, em média, US$ 12,9 milhões por ano, um impacto direto que vai além da operação e afeta decisões, eficiência e a própria experiência do cliente.

Ao mesmo tempo, cresce a responsabilidade das empresas em garantir privacidade, transparência e uso ético das informações dos seus clientes. Segundo a PwC, 85% dos consumidores afirmam que não farão negócios com empresas nas quais não confiam em relação ao uso de seus dados, reforçando que privacidade e transparência deixaram de ser exigências regulatórias e passaram a ser fatores de decisão do cliente.

Talvez o maior desafio do dia a dia esteja na capacidade de transformar dados em ação. Muitas organizações evoluíram na coleta e armazenamento de dados, mas ainda encontram dificuldade em utilizar essas informações na construção de interações que sejam coerentes, eficientes e mensuráveis, e principalmente rentáveis.

E, em um cenário cada vez mais orientado por inteligência artificial, quando se trata de experiência do cliente, existe uma linha muito tênue entre o bom e o ruim: o uso excessivo de automações que podem comprometer a humanização da experiência. Personalizar não é apenas automatizar, é, sobretudo, encontrar o melhor momento para intervir de forma relevante e transformar a experiência em valor real.

No fim, a diferença não está em ter mais dados, mas em fazer o melhor uso deles. Afinal, empresas que ainda tratam dados como registro estão, na prática, tomando decisões às cegas.

As empresas que conseguem transformar dados em valor real são aquelas que deixam de enxergar o cliente como um número ou um ponto de contato isolado, e passam a atuar com uma mentalidade organizacional centrada no cliente, buscando a construção de relações contínuas, baseadas em contexto, relevância e confiança.

O próximo passo dessa evolução já começa a se desenhar. A tendência é que a experiência do cliente se torne cada vez mais preditiva, integrada e, quem sabe até invisível, com os dados atuando nos bastidores para antecipar necessidades, reduzir fricções e tornar a jornada mais fluida. Nesse cenário, o desafio deixa de ser apenas coletar informações e passa a ser orquestrar experiências que façam sentido, no tempo certo e da forma certa.

Porque, no fim, não é sobre dados.

É sobre decisões que conectam e geram valor de longo prazo.

(*) Aline Pupim é Chief Experience & Engagement Officer (CXO) da Idea Maker, onde lidera a área de Experience & Engagement (EXE), integrando Customer Experience, CRM, UX, Inteligência Estratégica de Clientes e Marketing Institucional. Com trajetória construída entre os setores financeiro e de tecnologia, é especialista em Customer Experience, estratégia e inovação. Atua na construção de negócios centrados no cliente, conectando dados, tecnologia e relacionamento para transformar experiências em valor, fortalecer vínculos de longo prazo e impulsionar resultados sustentáveis.

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Ele embarcou US$ 80 mil. O dinheiro nunca chegou. E não havia nada a fazer

A história que todo exportador precisa ler antes de fechar o próximo negócio internacional


 

Felipe tinha levado três anos para chegar até aquele contrato.

Três anos prospectando importadores nos Emirados Árabes. Três anos aperfeiçoando o produto, obtendo certificações, ajustando a embalagem para o mercado árabe. Três anos de feiras, e-mails e videochamadas até encontrar o parceiro certo.

Quando o importador disse que queria 2.000 unidades, Felipe comemorou como nunca tinha comemorado nada no negócio. Fez as contas. Eram US$ 80 mil. A maior venda da história da empresa.

A negociação foi por e-mail. O importador era simpático, respondia rápido, parecia sólido. Pediram que o pagamento fosse feito após a chegada da mercadoria — “é como trabalhamos com todos os nossos fornecedores”, disseram.

Felipe aceitou.

Embarcou a mercadoria. Enviou os documentos. E esperou.

O pagamento não chegou na data combinada. Felipe mandou e-mail. O importador respondeu que havia um problema com o desembaraço local — em breve resolveriam. Mais uma semana. Mais um e-mail. Desta vez, sem resposta.

Quando Felipe procurou um advogado para entender o que poderia fazer, a resposta foi direta e devastadora:

“Sem contrato escrito, sem cláusula de lei aplicável, sem foro definido — não há o que acionar. Você teria que processar nos Emirados, com advogado local, sem garantia nenhuma de resultado.”

O dinheiro nunca chegou. O produto também não voltou.

 

Um e-mail não é um contrato. E essa diferença pode custar tudo.

A história de Felipe não é exceção. Ela se repete com frequência no comércio exterior brasileiro — especialmente entre micro e pequenas empresas que constroem relacionamentos de confiança com importadores e tratam a formalização jurídica como burocracia desnecessária.

O contrato internacional não é desconfiança. É profissionalismo. É o documento que define as regras do jogo antes que qualquer coisa dê errado — e que dá a ambas as partes a segurança de saber exatamente o que esperar uma da outra.

O que um contrato bem feito protege

A cláusula de pagamento define não apenas quando e como o importador paga, mas o que acontece se ele não pagar juros, multa, consequências. Sem ela, o exportador que não recebe não tem base jurídica para cobrar além do valor principal.

A cláusula de conformidade define os padrões de qualidade do produto e o prazo para o importador reclamar. Sem ela, o importador pode rejeitar a mercadoria semanas ou meses depois da chegada, alegando qualquer problema — e você não tem como provar que o produto estava conforme quando embarcou.

A cláusula de lei aplicável define qual legislação rege o contrato em caso de disputa. Sem ela, cada parte assume que a sua lei nacional prevalece e resolver isso antes de discutir o mérito da disputa pode levar anos.

A cláusula de arbitragem define como e onde as disputas serão resolvidas. Sentenças arbitrais são reconhecidas em mais de 170 países pela Convenção de Nova York. Uma sentença judicial brasileira contra um importador nos Emirados Árabes, sem cláusula de foro, vale praticamente nada na prática.

Negociar em mercados diferentes exige mais do que um bom produto

Um contrato assinado na China é o começo da negociação, não o fim. Importadores chineses renegociam termos após a assinatura com frequência e se o contrato não tiver cláusulas claras de penalidade e conformidade, o exportador não tem onde se apoiar.

No Oriente Médio, o negócio é feito entre pessoas antes de ser feito entre empresas. A relação pessoal tem peso enorme, mas a formalização jurídica é o que garante que essa relação não se torne uma armadilha quando os interesses divergem.

Nos Estados Unidos, contratos são longos, detalhados e revisados por advogados. Se você chegar numa negociação com americanos sem um contrato estruturado, a percepção sobre a sua empresa muda imediatamente.

Conhecer as nuances culturais de cada mercado não é apenas uma questão de etiqueta. É uma questão de resultado.

Felipe hoje exporta com contrato. Sempre.

Dois anos depois da experiência com os Emirados, Felipe fechou uma nova parceria com um importador na Alemanha. Desta vez, com contrato. Com cláusula de pagamento antecipado de 50%. Com prazo de reclamação de 15 dias. Com arbitragem ICC como foro de resolução de disputas.

A operação foi impecável. O importador alemão elogiou a profissionalidade da proposta contratual.

“O contrato não assustou ninguém”, Felipe me disse. “Pelo contrário. O importador ficou mais confiante porque viu que eu sabia o que estava fazendo.”

É isso que um contrato bem feito comunica: seriedade, preparo e respeito pelo negócio do outro lado.

 


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Amcham, CNI e US Chamber of Commerce conclamam governos do Brasil e dos EUA a buscarem acordo para evitar novas tarifas

Da Redação (*)

Brasília – A Amcham Brasil, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a U.S. Chamber of Commerce enviaram hoje (9) uma carta aos governos do Brasil e dos Estados Unidos defendendo a construção de um acordo de curto prazo que contribua para uma solução negociada no âmbito da investigação da Seção 301 envolvendo o Brasil e evite a aplicação de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros.

Na carta, as entidades ressaltam que uma solução negociada representa o caminho mais eficaz para fortalecer a competitividade, ampliar oportunidades econômicas e gerar resultados duradouros para a relação bilateral, evitando efeitos indesejados para empresas, trabalhadores e consumidores dos dois países. Também defendem que esse entendimento seja o primeiro passo de uma agenda incremental, estruturada em duas etapas, que permita aprofundar a cooperação econômica entre Brasil e Estados Unidos.

Como prioridade imediata, a carta propõe que as negociações concentrem esforços nos seguintes temas:

  • Ampliar o acesso a mercados para determinados produtos, incluindo insumos industriais, bens de capital e produtos voltados à segurança energética, ao desenvolvimento de data centers e à infraestrutura de inteligência artificial;
  • Aprofundar a cooperação regulatória para facilitar o acesso a mercados em setores como automotivo, produtos para saúde e equipamentos médicos;
  • Apoiar uma extensão de longo prazo da moratória da OMC sobre a não incidência de direitos aduaneiros sobre transmissões eletrônicas;
  • Acelerar o exame de patentes e reduzir o estoque (backlog) de pedidos de patente no Brasil, especialmente nos setores de saúde e biofarmacêutico, bem como fortalecer o combate à pirataria e à contrafação;
  • Avançar em uma cooperação sobre minerais críticos, envolvendo mapeamento geológico conjunto, pesquisa e desenvolvimento, investimentos para processamento e agregação de valor, bem como o desenvolvimento de cadeias bilaterais de fornecimento seguras e resilientes; e
  • Implementar integralmente o Protocolo Anticorrupção do ATEC.

Defesa de uma agenda bilateral ampliada

Em uma segunda etapa, as entidades sugerem que a agenda bilateral seja ampliada para incluir outras áreas de interesse mútuo, como resiliência de cadeias produtivas, segurança energética, economia digital, comércio eletrônico, facilitação de comércio, inovação, descarbonização industrial, transportes, agricultura, produtos farmacêuticos, equipamentos médicos e outras prioridades capazes de aprofundar o comércio e os investimentos bilaterais.

A carta foi encaminhada, no Brasil, ao Ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e ao Ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Nos Estados Unidos, foi dirigida ao United States Trade Representative (USTR), Jamieson Greer, e ao Secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio.

“Às vésperas do prazo final da investigação, é essencial um esforço concentrado dos governos do Brasil e dos Estados Unidos para viabilizar um acordo que evite a aplicação das tarifas e abra espaço para uma agenda mais ampla de fortalecimento da relação econômica bilateral”, afirma Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.

Em conjunto, a Amcham Brasil, a CNI e a U.S. Chamber of Commerce representam milhares de empresas dos dois países e reafirmam seu compromisso com o fortalecimento da parceria econômica entre Brasil e Estados Unidos por meio do diálogo, da negociação e da cooperação entre os setores público e privado.

(*) Com informações da Amcham Brasil

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A parceria econômica Brasil-China e seus novos desdobramentos

Fernanda Brandão (*)

Uma comitiva liderada pelo Ministério da Fazenda brasileiro esteve na China entre os dias 24 e 26 de junho com o objetivo de fortalecer a cooperação macroeconômica entre os dois países. O principal objetivo do Ministério com a visita foi entregar às autoridades chinesas a Carta de Apresentação do governo brasileiro, a fim de dar início ao processo de emissão de títulos da dívida pública brasileira em renminbi, a moeda chinesa, no mercado financeiro chinês. O governo busca aumentar a participação do país na economia internacional e diversificar as fontes de financiamento da dívida pública nacional.

A visita também teve como objetivo fortalecer iniciativas de financiamento climático, como o Programa Eco Invest Brasil, a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica (BIP) e o desenvolvimento do mercado regulado de carbono. Para tanto, foram realizadas reuniões com o NDB, o banco de desenvolvimento dos BRICS, e com o AIIB (Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura). O país busca atrair investimentos produtivos, fortalecer a descarbonização da economia brasileira e ampliar sua inserção em cadeias globais de valor.

A China é um importante parceiro econômico do Brasil. Desde 2009, o país é o principal parceiro comercial brasileiro. Entre os principais produtos exportados pelo Brasil para a China destacam-se soja, petróleo e minério de ferro, enquanto o Brasil importa, principalmente, bens manufaturados chineses. Em 2025, o Brasil foi o principal destino dos investimentos chineses no mundo, o que representou um aumento de 45% em comparação com o ano anterior. Contudo, os Estados Unidos ainda são a principal fonte de Investimento Externo Direto (IED) para o Brasil.

A China tem se consolidado como um importante parceiro econômico do Brasil em meio a um cenário de competição geopolítica com os Estados Unidos pela preponderância econômica global. A influência chinesa na América Latina tem crescido em detrimento da influência americana, principalmente pelo fortalecimento de parcerias econômicas com os países da região, incluindo acordos bilaterais de investimento e a posição da China como importante destino das exportações de produtos primários latino-americanos.

Esse movimento tem levado os Estados Unidos a adotar uma postura voltada ao restabelecimento da preeminência de sua influência na região. Em novembro de 2025, o governo Trump deixou claro, em sua Estratégia de Segurança Nacional, que a América Latina é vista como estratégica e fundamental para a segurança nacional dos Estados Unidos.

O esforço americano de reafirmar sua influência na região tem sido marcado pela imposição de tarifas comerciais elevadas aos países latino-americanos, sob o argumento de práticas comerciais desleais que prejudicariam as exportações americanas. Países como Guiana, Guiana Equatorial, Nicarágua e Venezuela receberam tarifas recíprocas superiores aos 10% impostos aos demais países, anunciadas em abril de 2025.

Apesar de inicialmente ter recebido apenas a tarifa geral de 10%, o Brasil passou a enfrentar tarifas adicionais de 40%, sob justificativas diversas envolvendo a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, a regulação das mídias sociais e a alegada ameaça que o Pix representa aos serviços financeiros americanos.

Apesar da elaboração de uma extensa lista de exclusões de produtos brasileiros afetados pelas tarifas e da posterior suspensão, pela Suprema Corte dos Estados Unidos, das tarifas recíprocas, em junho deste ano foram anunciadas tarifas de 25%, após investigação comercial conduzida com base na Seção 301, que deverão entrar em vigor em 15 de julho próximo.

Os Estados Unidos têm aplicado tarifas comerciais elevadas a diversos parceiros com o objetivo de forçá-los a negociar acordos que privilegiem os interesses americanos e reduzam o nível tarifário, embora essas medidas não eliminem as barreiras comerciais impostas ao comércio internacional. Para países que têm os Estados Unidos como um de seus principais parceiros comerciais, essas tarifas podem gerar impactos econômicos significativos.

Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, mas, desde 2025, as exportações brasileiras para o país vêm diminuindo. Em contrapartida, as exportações para a China continuam crescendo e, em 2026, já registraram aumento de 21% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

O fortalecimento da parceria entre China e Brasil não ocorre apenas no comércio e nos investimentos, mas também na crescente presença da moeda chinesa nos ativos de reserva do país e nas transações financeiras. Desde 2023, o renminbi tornou-se a segunda principal moeda presente nas reservas internacionais do Banco Central, superando o euro, embora ainda esteja bastante aquém do dólar.

Entre 2024 e 2025, o volume de importações brasileiras provenientes da China pagas em moeda chinesa aumentou de US$ 1,80 bilhão para US$ 3,81 bilhões, embora isso ainda represente apenas 1,36% das importações brasileiras.

Além disso, o país já conta com instituições financeiras habilitadas a realizar transações em renminbi, como o BOCOM BBM e a filial brasileira do Banco Comercial da China. O BOCOM BBM foi a primeira instituição ligada diretamente ao CIPS, sistema de pagamentos chinês alternativo ao SWIFT, e a primeira a concluir uma operação de crédito em renminbi com uma empresa brasileira.

Neste ano, a XTransfer, plataforma chinesa de pagamentos entre empresas voltada ao comércio exterior, instalou-se no Brasil com o objetivo de facilitar a participação de pequenas e médias empresas no comércio internacional, contribuindo também para ampliar o uso da moeda chinesa nessas transações.

No contexto em que os Estados Unidos se apresentam como um parceiro econômico menos confiável, a diversificação de parceiros torna-se fundamental para fortalecer a resiliência e garantir a continuidade do crescimento econômico nacional. A China tem se consolidado como um importante parceiro em termos de comércio e investimentos, demonstrando disposição para expandir a cooperação econômica com o Brasil, considerado estratégico na região.

As iniciativas promovidas durante a viagem da comitiva do Ministério da Fazenda visam fortalecer as relações entre os dois países. Contudo, uma aproximação cada vez maior com a China certamente continuará a gerar incômodo nos Estados Unidos, que tendem a buscar mecanismos para reafirmar sua preponderância em sua área de influência.

(*) Fernanda Brandão, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana  Mackenzie Rio

 

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Um apelo ao STF

Ives Gandra (*)

Sou advogado há 68 anos e professor universitário há 62. Considerando tantas décadas de atuação, é evidente que convivi e convivo com ministros da Suprema Corte desde a minha primeira sustentação oral, em 1962, quando, inclusive, fui recebido na residência do então ministro Hahnemann Guimarães.

De lá para cá, sempre mantive contato com todos eles — uma proximidade prazerosa que não ocorre atualmente porque, infelizmente, já não consigo mais viajar. Escrevi obras em coautoria com vários ministros e partilho cadeiras em diversas academias literárias e jurídicas com vários deles. Somente com o ministro Moreira Alves, foram 32 livros que publicamos juntos.

Gostaria, entretanto, de tratar de algo que os recentes editoriais e matérias jornalísticas têm criticado duramente, ou seja, o debate público entre os ministros da Suprema Corte. Trata-se tanto de divergências sobre o Código de Ética, que uns Ministros querem e outros não, quanto de ataques públicos entre colegas, prática expressamente proibida pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman).

No momento em que tais divergências são levadas a público, fica demonstrado que esses embates estão afetando a política, a estabilidade institucional e a segurança jurídica. Um exemplo disso é o que a mídia e os jornais comentaram sobre a recente entrevista do ministro Gilmar Mendes no programa Roda Viva da TV Cultura, que acabou gerando inúmeras especulações, a ponto de o povo brasileiro estar tomando partido nesta ou naquela linha de pensamento.

Sou inteiramente favorável que a Suprema Corte recupere o prestígio e a respeitabilidade que possuía no passado e, por isso, faço o apelo, como um velho advogado, para que os senhores ministros do STF voltem a ter uma conduta semelhante àquela que conferiu à Instituição a grande respeitabilidade que possuía. As divergências devem ser internas e não é adequado que sejam levadas a público.

Ora, cultura e valores todos os ministros têm. Posso divergir — e tenho divergido — de várias decisões, mas os debates que estão ocorrendo deveriam se restringir estritamente ao plano jurídico, para não serem explorados pelos jornais como se representassem posições políticas de A, B ou C.

A proposta do ministro Edson Fachin de que se institua um código de ética é, a meu ver, de grande utilidade para todos os integrantes da Suprema Corte. Os ministros André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia também defendem a necessidade dessa normatização. Creio que um código de ética seria de grande utilidade para todos os ministros, atuais e futuros, pois auxiliaria efetivamente os magistrados a se conduzirem perante a opinião pública.

Divergências conceituais e jurídicas devem continuar sendo apresentadas publicamente nas sessões de julgamento, mas os conflitos de comportamento e as discordâncias sobre a forma de agir deveriam, evidentemente, ser tratados de maneira reservada. Mesmo que haja críticas mútuas a fazer, que estas ocorram nas sessões internas e administrativas, permitindo que o perfil do Supremo Tribunal Federal volte a emergir como o da instituição que, no passado, era a mais respeitada do Brasil.

A democracia não existe em função de palavras. Dizer “eu sou democrático”, “eu defendo a democracia” ou “sou contra a crítica àqueles que não querem a democracia” resume-se apenas a palavras. A democracia faz-se com ações, com exemplos. Dizia São Josemaria Escrivá que “frei exemplo é o melhor pregador”.

A melhor defesa da democracia é a estabilidade das instituições e a respeitabilidade que elas possuem perante o povo.

Não estou, evidentemente, pretendendo dar conselhos ou dizer aos ministros o que fazer, mas peço que reflitam, para que o Supremo volte a ser o que era no passado. Afinal, hoje, o povo brasileiro em geral e toda a imprensa apresentam críticas e posições favoráveis ou contrárias, tratando o Supremo Tribunal Federal como se fosse um poder político, e não o guardião da Constituição Federal, que garante a segurança jurídica por ser um poder imparcial e acima de qualquer suspeita.

É exatamente por sempre ter defendido o Supremo Tribunal Federal, desde os meus bancos acadêmicos, que faço esse apelo. Os professores que tive e que pertenceram à Suprema Corte sempre me ensinaram a lutar por ela, pois a garantia dos direitos no país depende de seu tribunal máximo. Se a Suprema Corte perde a respeitabilidade perante o povo, automaticamente a democracia corre risco.

Evidentemente, respeito os meus amigos da Suprema Corte tanto que em meus artigos e nas redes sociais, nunca falo mal de nenhum dos ministros. Posso criticar suas posições, mas nunca critico as pessoas ou a cultura de cada um deles. A Excelsa Corte, contudo, precisa voltar a ser o que era no passado. Só assim teremos, realmente, a defesa do Estado Democrático de Direito e a salvaguarda da democracia.

É, pois, com esse propósito que venho, mais uma vez — respaldado pelos meus 91 anos de idade, 68 de advocacia e 62 de magistério universitário, com livros publicados em 21 países, além do privilégio de pertencer a 42 academias e somar 45 títulos acadêmicos —, demonstrar, sem nenhuma vaidade pessoal, que a minha vida sempre foi inteiramente dedicada ao Direito, razão pela qual dirijo este apelo ao STF em prol de um resgate institucional.

Esse resgate institucional, contudo, não depende de reformas estruturais ou de medidas judiciais complexas, mas sim de um esforço estritamente moral e de conduta. O apelo que aqui se faz é um pedido prático para que se iniciem os debates institucionais, inclusive com a urgente adoção de um código de ética — como bem sugerido pelo ministro Edson Fachin —, de modo que as naturais e salutares divergências jurídicas — bem como os eventuais conflitos pessoais — permaneçam restritas ao ambiente reservado das sessões internas, preservando a imagem da Corte perante a opinião pública.

Dirijo, portanto, este clamor àqueles que são os guardiões máximos da justiça no Brasil para que conduzam o Supremo Tribunal Federal, o Pretório Excelso do nosso País, de volta ao patamar de respeito e admiração que possuía na época do ministro Moreira Alves.

(*) Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).

 

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