O que o Brasil pode aprender com a revolução digital da saúde na China

Andréa Rangel (*)

No segundo semestre de 2025, participei de uma missão comercial à China para conhecer tecnologias e modelos de operação que hoje colocam o país na vanguarda da saúde global. O impacto foi imediato, a China, que possui hoje 1,4 bilhão de habitantes, opera com um nível de integração, automação e precisão que causa estranhamento no olhar brasileiro. Nada ali parece “promissor”, na verdade é real, cotidiano e escalável.

Com mais de 39 mil hospitais, cerca de 8 milhões de leitos e mais de 3 bilhões de atendimentos anuais, o país transformou tecnologia em política pública e isso se reflete em hospitais inteligentes, diagnósticos acelerados por IA e um ambiente industrial pronto para sustentar a saúde digital.

No Brasil, o SUS cobre 100% da população, mas conta com uma infraestrutura menor, com cerca de 7.500 hospitais e 500 mil leitos, resultando em 2 leitos por mil habitantes, contra mais de 5 leitos por mil habitantes na China.

Mas o número bruto chinês não é o que mais impressiona, mas, sim, a transformação digital, inovação, o uso intensivo de inteligência artificial, automação, conectividade 5G e sistemas integrados de dados, e logística por drones. É justamente isso que tem chamado executivos brasileiros para observar, comparar e adaptar soluções ao contexto nacional da saúde no Brasil. A missão comercial que participei revelou, dia após dia, como essa integração funciona na prática.

Tecnologia integrada como padrão, não exceção

Em Shenzhen, cidade da China, no centro de inovação da Huawei, fornecedora global de soluções de tecnologia da informação e comunicação, testemunhei como a China levou a integração ao extremo. Plataformas de IoT monitoram hospitais em tempo real, sistemas de armazenamento tratam milhões de imagens médicas com resiliência e segurança da informação, e algoritmos de IA auxiliam médicos na tomada de decisão, organizam agendas e personalizam tratamentos.

O que impressiona não é apenas a existência dessas tecnologias, mas o fato de funcionarem juntas. Na China, diagnósticos, históricos clínicos, dados de imagem e informações administrativas trafegam em um ecossistema padronizado, interoperável e pensado desde o início para escalar.

Por que a China consegue interoperar dados em saúde com sucesso?

Três fatores explicam essa maturidade e ajudam a entender o contraste com o Brasil:

– Um Estado que centraliza padrões e exige interoperabilidade: O governo chinês criou diretrizes e padrões nacionais obrigatórios para sistemas de prontuário, plataformas hospitalares, equipamentos, dados clínicos e protocolos digitais. Na prática, isso significa que independentemente da cidade ou hospital, os sistemas “falam a mesma língua”.

– Investimento massivo em infraestrutura digital: A China investiu por anos na construção de uma espinha dorsal tecnológica composta por redes de fibra ótica, 4G, 5G e data centers nacionais. Esse ambiente preparado facilita a integração de dados e uso de IA em larga escala.

– Integração entre governo, universidades e indústria: Empresas como Huawei, MicroPort e United Imaging trabalham lado a lado com universidades e centros de pesquisa, e seus produtos já nascem interoperáveis, conectados e orientados por padrões nacionais.

O resultado é um sistema fluido, capaz de cruzar informações clínicas entre regiões, ampliar diagnósticos remotos e reduzir desigualdades geográficas. Uma meta que o Brasil ainda tenta alcançar.

A engenharia por trás da saúde chinesa

Em visita a um complexo fabril da Huawei de 1,3 milhão de m², presenciei a filosofia dos “três zeros”: Zero luz, Zero pessoas, Zero erros. Robôs, processos automatizados e esteiras inteligentes realizam tarefas de forma totalmente integrada e a precisão supera padrões. Esse rigor industrial abastece diretamente o setor de saúde, com equipamentos avançados, sensores de alta confiabilidade e sistemas preparados para grandes redes hospitalares.

Hospitais que funcionam como centros de alta tecnologia

No Sun Yat-sen University Cancer Center, o maior centro oncológico integrado da China, localizado na cidade de Guangzhou, tudo flui de forma surpreendentemente coordenada. Com mais de 2.200 leitos, o centro realiza cerca de 2 milhões de atendimentos por ano e mais de 45 mil cirurgias anuais, números que o colocam entre as instituições oncológicas mais produtivas do mundo. Uma operação milimetricamente orquestrada por tecnologias que permitem uma jornada do paciente digital com check-in automático, reconhecimento facial para prontuários, redução drástica do tempo de admissão, sistemas preditivos para gestão de leitos, entrega de medicamentos feitas por robôs que circulam pelos corredores dos hospitais, radioterapia guiada digitalmente, ressonâncias analisadas com IA que reduzem até 50% o tempo de interpretação, com até 95% de precisão dependendo do exame.

Na cidade de Xangai, a MicroPort, empresa global de dispositivos médicos, apresentou casos de telecirurgias realizadas entre distâncias de até 12 mil quilômetros, sustentadas por redes 5G de alta estabilidade. Já a United Imaging Healthcare, fabricante de tecnologia médica, exibiu PET/CT de corpo inteiro, tomógrafos de 640 fatias e plataformas de IA aplicadas diretamente a fluxos clínicos.

O clássico Hospital Ruijin é uma das instituições mais avançados da China em terapias de alta complexidade. Um de seus marcos é o investimento em terapia de prótons, modalidade de radioterapia que utiliza partículas aceleradas para tratar tumores com extrema precisão, reduzindo danos a tecidos saudáveis. Este hospital é um modelo observado por estrangeiros por conseguir unir investimento consistente em ciência e tecnologia, integração entre universidades, governo e indústria, padronização de dados, digitalização abrangente e infraestrutura tecnológica de alta escala.

Por que a China investe tanto em pesquisa e educação em saúde

Essa capacidade tecnológica é sustentada por uma política de longo prazo:

– Educação como prioridade nacional: Universidades chinesas formam milhares de engenheiros, médicos, cientistas de dados e físicos médicos todos os anos, com programas diretamente financiados pelo governo.

– Pesquisa aplicada e orientada ao mercado: Em vez de pesquisas dispersas, a China direciona investimentos a áreas estratégicas, como IA médica, biotecnologia, nanotecnologia, fusão diagnóstico-tratamento, equipamentos hospitalares, farmacêuticos e 5G/6G.

– Parceria entre governo e indústria: Projetos de saúde costumam nascer de cooperação entre hospitais, empresas e universidades, o que reduz o tempo entre pesquisa e aplicação real.

– Continuidade de políticas públicas: Diferentemente do Brasil, a política científica chinesa é estável e de longo prazo. O plano de inovação em saúde não muda a cada eleição.

O contraste com o Brasil: o que nos impede de avançar na mesma velocidade

Apesar dos avanços do SUS e de sua relevância social, o Brasil enfrenta barreiras profundas, como fragmentação de sistemas e falta de padrões nacionais de dados; infraestrutura desigual, especialmente fora das capitais; burocracia nas compras públicas, que dificulta adoção de novas tecnologias; escassez de profissionais especializados em engenharia hospitalar, IA médica e interoperabilidade; investimentos instáveis em pesquisa e inovação; baixa automação hospitalar e dependência de processos manuais; e rede 5G ainda restrita, sendo um impeditivo para telecirurgia e monitoramento avançado. São desafios reais, mas que podem ser superados com políticas de longo prazo, parcerias tecnológicas e investimento inteligente.

Um futuro possível para o Setor da saúde no Brasil

Em 2025, Brasil e China firmaram cooperações para construir o primeiro hospital inteligente do país, em São Paulo, com mais de 800 leitos e infraestrutura avançada de IA. Parcerias também envolvem pesquisa em vacinas, oncologia e dispositivos médicos de última geração.

Se a China oferece a visão de um sistema massivo e altamente digitalizado, o desafio brasileiro é adaptar essas práticas à realidade nacional, mantendo a essência do SUS, que é ser universal, gratuito e integral.

A missão à China não me mostrou um modelo a ser copiado, mas um horizonte para ser adaptado. A China prova que tecnologia e saúde pública podem caminhar juntas e que integração, interoperabilidade e IA podem fortalecer um sistema universal como o SUS.

A distância entre nossos países ainda é grande, mas não intransponível. O Brasil tem talento, escala e necessidade. Falta transformar tudo isso em estratégia. Modernizar a saúde brasileira se mostra possível e urgente.

(*) Andréa Rangel,  Head de Negócios em Saúde da Hexa IT. Bacharel em Letras com habilitação para tradutor e intérprete, e possui especialização em Comércio Internacional pelo Institute of Export, em Londres. Além de uma pós-graduação em Automação na saúde e na Medicina, pela FMUSP – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 

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Comércio exterior bate em 2025 recordes históricos de exportação, importação e corrente de comércio, apesar do tarifaço

Importações e corrente de comércio também tiveram as melhores marcas desde o início da série, em 1989

Da Redação (*)

Exportações brasileiras batem recorde histórico em 2025 e somam US$ 349 bilAs exportações brasileiras alcançaram recorde histórico em 2025, mesmo sob cenário internacional adverso. Dados divulgados nesta terça-feira (6) pela Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Secex/MDIC) mostram que as exportações do Brasil no ano passado somaram US$ 348,7 bilhões, superando em US$ 9 bilhões o recorde anterior, que era de 2023. Os últimos três anos apresentam os melhores resultados históricos para a balança comercial.

Em relação a 2024, o aumento das exportações no ano passado, em valores, foi de 3,5%. Em volume, o crescimento foi ainda maior: 5,7%. Esse último percentual é mais do que o dobro do previsto pela Organização Mundial do Comércio (OMC) para o crescimento global em 2025, de 2,4%.

Além disso, mais de 40 mercados registraram recorde de compras de produtos brasileiros em 2025, com destaque para Canadá, Índia, Turquia, Paraguai, Uruguai, Suíça, Paquistão e Noruega.

“Em meio às dificuldades geopolíticas, conseguimos conquistar novos mercados e ampliar os que já tínhamos.”, afirma o vice-presidente e ministro Geraldo Alckmin. “O resultado reflete também o conjunto de programas e ações do governo do presidente Lula para aumentar a produtividade e a competitividade de nossas empresas no exterior, sobretudo com a Nova Indústria Brasil (NIB) e com o Plano Brasil Soberano”.

Importações, corrente e superávit

As importações também bateram recorde em 2025, alcançando US$ 280,4 bi, valor 6,7% superior ao de 2024 e quase US$ 8 bi acima do recorde anterior, de 2022.

Com isso, a corrente de comércio somou US$ 629,1 bi, chegando ao maior patamar já registrado – com aumento de 4,9% sobre o ano passado. Já o superávit ficou em US$ 68,3 bi, terceiro maior da série histórica, atrás apenas de 2023 e 2024.

Dezembro de 2025

Os dados relativos apenas a dezembro de 2025 revelam exportação recorde de US$ 31 bilhões (+24,7%) para o mês; importações de US$ 21,4 bilhões (+5,7%); e saldo de US$ 9,6 bilhões (+107,8%), recorde para meses de dezembro. A Corrente de Comércio ficou em US$ 52,4 bilhões (+16,2%), também recorde para o mês.

Exportações por setores, produtos e países

No ano, as exportações da indústria de transformação cresceram 3,8% em valor, influenciadas pelo aumento de 6% em volume, alcançando o montante recorde de US$ 189 bilhões. Destacam‑se, neste setor, os recordes nas exportações de carne bovina (US$ 16,6 bi), carne suína (US$ 3,4 bi), alumina (US$ 3,4 bi), veículos automóveis para transporte de mercadorias (US$ 3,1 bi), caminhões (US$ 1,8 bi), café torrado (US$ 1,2 bi), máquinas e aparelhos elétricos (US$ 1,0 bi), máquinas e ferramentas mecânicas (US$ 729 mi), produtos de perfumaria (US$ 721 mi), cacau em pó (US$ 598 mi), instrumentos e aparelhos de medição (US$ 593 mi) e defensivos agrícolas (US$ 495 mi).

Já a indústria extrativa registrou aumento de 8% no volume exportado. Minério de ferro (416 milhões de toneladas) e petróleo (98 milhões de toneladas) bateram recordes de embarque. Os bens agropecuários cresceram 3,4% em volume e 7,1% em valor. O café verde atingiu valor recorde (US$ 14,9 bi), enquanto a soja registrou volume recorde (108 milhões de toneladas), assim como o algodão em bruto (3 milhões de toneladas).

Em relação aos destinos, a exportação para a China cresceu 6% e atingiu US$ 100 bilhões, impulsionada por soja, carne bovina, açúcar, celulose e ferro‑gusa. Para a União Europeia, o crescimento foi de 3,2%, com destaque para café, carne bovina, minério de cobre, milho e aeronaves. Para a Argentina, as exportações cresceram 31,4%, impulsionadas pelo setor automotivo.

Para os Estados Unidos, houve queda de 6,6% no ano, concentrada entre agosto e dezembro, como resultado do tarifaço imposto pelo governo norte-americano a parte dos produtos brasileiros. A maior redução ocorreu em outubro (–35,4%). Em dezembro, porém, houve melhora, com queda de apenas 7,2% e embarques acima de US$ 3 bilhões (US$ 3,4 bi).

Importações por setores, produtos e países

Nas importações, os bens de capital tiveram o maior aumento (+23,7%), seguidos por bens intermediários (+5,9%) e bens de consumo (+5,7%). As importações de combustíveis recuaram 8,6%.

Cresceram as importações originárias da China (11,5%), Estados Unidos (11,3%) e União Europeia (6,4%). A importação de produtos argentinos recuou 4,7%.

(*) Com informações Secex/MDIC

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A queda de Maduro: liberdade depende de expulsar castas corruptas

Márcio Coimbra (*)
O amanhecer de 2026 marca um ponto de inflexão decisivo para a Venezuela. A queda de Nicolás Maduro e sua transferência sob custódia para Nova Iorque simbolizam o colapso de um sistema que exauriu o Estado, convertendo instituições em engrenagens do crime transnacional. No entanto, o vácuo deixado por décadas de autoritarismo exige prudência absoluta. A transição demanda cautela na estabilização interna e na recuperação de uma indústria petrolífera dilapidada por quase trinta anos de uma gestão que priorizou o saque sistemático e a repressão em parceria com máfias estrangeiras.

A realidade atual ratifica as denúncias de Maria Corina Machado: a PDVSA foi, na prática, privatizada por máfias e potências revisionistas. Sob o manto da Lei Antibloqueio, o regime operou a transferência clandestina de ativos para figuras como Alex Saab e conglomerados sem expertise, como o Consórcio Petroluxe e a Tridente Servicios Petroleros.

A teia estendeu-se a empresas de fachada ligadas ao Irã, China e Rússia, incluindo a Sinohydro Corporation e as obscuras Anhui Guangda e Beijing Huasheng Rongcheng — cujos objetos sociais originais, como processamento de dados, mascaravam a exploração de hidrocarbonetos. Até a entidade turca Kase Finansal, de natureza financeira, tornou-se operadora petrolífera, evidenciando uma prioridade na engenharia financeira para lavagem de capitais em detrimento da técnica industrial.

Sob o domínio de Pequim, Teerã e Moscou, o patrimônio nacional foi desidratado para financiar a repressão interna e máquinas de guerra globais. Essa pilhagem reduziu a produção a níveis inferiores a 30% de sua capacidade histórica — um déficit de 70% causado por corrupção e negligência. Reerguer este setor vital exigirá agora o aporte tecnológico e a transparência que apenas os Estados Unidos e o mercado global legítimo podem oferecer.

Esta reconstrução é indissociável de um resgate ético. Não há soberania legítima quando o Estado submete o povo a uma ditadura brutal e invocar o Direito Internacional para proteger um tirano que converteu o país em santuário da tortura situa-se em um absoluto vácuo moral. Aqueles que evocam a “não-ingerência” silenciaram enquanto o terror era institucionalizado nos porões do SEBIN e da DGCIM. A intervenção liderada pelos EUA deve ser vista como um ato de responsabilidade internacional necessário para desmantelar um Estado-narcomafioso que ameaçava a segurança hemisférica.

Contudo, remover Maduro é apenas o primeiro passo. O desafio hercúleo reside na rede sistêmica de controle militar. Permanecem no território centenas de generais vinculados ao narcotráfico, como Vladimir Padrino López, Domingo Hernández Lárez e Diosdado Cabello, responsáveis por pilhar o erário. É impossível reconstruir o país removendo apenas a “cabeça” do regime e a sobrevivência da democracia exige uma limpeza institucional cirúrgica nas raízes dessa narcocorrupção. Sem desmantelar essa casta militar, qualquer mudança será apenas cosmética. O êxito desta nova era depende da coragem em erradicar as estruturas que ainda infestam o Estado, devolvendo, finalmente, a verdadeira soberania ao povo venezuelano.

(*Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro e Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

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Países aliam política à defesa comercial e nova onda de protecionismo se espalha pelo mundo, analisa especialista

Especialista em comércio exterior Jackson Campos aponta para uso político de medidas de proteção comercial e como exportadores precisam diversificar clientes para mitigar impactos

Da Redação

Brasília – A defesa comercial deixou de ser um instrumento técnico restrito do comércio exterior e se tornou uma ferramenta geopolítica. Na teoria, instrumentos mais usados, como o antidumping, compensatórios e salvaguardas, partem de uma lógica simples que é proteger setores domésticos de práticas de comércio que um país julga injustas ou de ondas de importação que ameacem a produção local. Na prática política, porém, as medidas viram instrumentos de barganha.

Países elevam tarifas ou abrem investigações quando desejam dar fôlego a uma indústria sensível por razões próprias ou quando precisam responder a choques externos. A OMC (Organização Mundial do Comércio) calculou que em outubro de 2024 todas as restrições de importação em vigor somavam impacto sobre US$ 2,942 bilhões em bens, o que representa 11,8% de tudo o que o mundo importa.

Em 2025 esse dado pode ser ainda maior, já que cada vez mais medidas protecionistas estão sendo adotadas e causam transtornos internos e externos. Jackson Campos, especialista em comércio exterior, chama atenção para o caráter político dessas decisões.

“Medidas como o ‘tarifaço’ têm efeito imediato sobre preços e cadeias, mas a retirada rápida também reflete pressão do mercado interno e cálculo político. É um jogo de xadrez e os movimentos dos países dependem tanto da diplomacia quanto de economia. Governos usam defesas comerciais para ganhar tempo, proteger produtores enquanto se busca ajuste estrutural ou renegociação internacional, mas pagam o preço em termos de competição e custo ao consumidor.”, analisa Campos.

OMC fragilizada contribui para medidas de proteção extrema

O enfraquecimento do poder de interferência e de conciliação da OMC fez com que cada vez mais países estabelecidos no comex começassem a tomar medidas de proteção extremas sem consequências graves, parando em longos processos litigiosos. Essas grandes economias frequentemente articulam medidas unilaterais com estratégia externa, barrando importações para proteger um setor e, simultaneamente, sinalizar prioridades geopolíticas. 

Para empresas e operadores de comércio, as implicações são operacionais e estratégicas. Mais que tarifas, o risco real vem de planejamentos logísticos e contratos internacionais que passam a incorporar cenários de instabilidade de tarifas repentinas. Campos observa que, diante dessa volatilidade, importadores e exportadores precisam reforçar a diversificação de mercados

“Quem depende de uma única rota ou fornecedor fica refém de decisões que não controlam e vão sofrer quando medidas mais extremas forem tomadas. Por isso, planejamento e alternativas comerciais são a melhor defesa privada, porque permitem que os exportadores sintam menos o impacto de mudanças como tarifaço, porque continuam tendo onde vender seus produtos, e mudanças de legislações”, explica o especialista.

Quando tarifas passam a ser empregadas de forma recorrente com objetivos de curto prazo ou como forma de pressão geopolítica, a previsibilidade do comércio se deteriora, os custos das cadeias produtivas sobem e o risco de ciclos de retaliação se amplia, afetando preços internos e decisões de investimento. “As tarifas deve ser exceção e não regra, sobretudo em economias que buscam expansão de mercados e estabilidade regulatória. Quando vira prática sistemática de política econômica, corre-se o risco de sacrificar a competitividade e o desenvolvimento nacional em nome de um protecionismo de curto prazo. Não há mais como fechar as portas e viver sozinho, é preciso agir com muita assertividade e inteligência para não sair prejudicado nesse jogo político-econômico”, conclui Campos.

 

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ABEC e CNA divulgam nota expressando grave preocupação com imposição pela China de tarifas de 67% contra exportações da carne bovina brasileira

Da Redação (*)

Brasília – A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) divulgou hoje (31) comunicado expressando grave preocupação com a decisão do governo da China de impor medidas de salvaguardas que podem chegar a 67% contra as exportações de carne bovina brasileira para o país asiático. Segundo as duas instituições, a aplicação das medidas de salvaguarda pela China, no contexto da investigação conduzida sobre as importações de carne bovina, altera as condições de acesso ao seu mercado e impõe uma reorganização dos fluxos de produção e de exportação. Esses embarques dizem respeito a produtos com valor agregado e perfil distinto do consumo doméstico, associados à geração de emprego e renda no setor. A China permanece como o principal destino da carne bovina brasileira e um importante mercado para o funcionamento da pecuária nacional.

A medida passa a valer a partir de 1º de janeiro de 2026 e estabelece uma quota crescente nos três primeiros anos, iniciando em 1,106 milhão de toneladas no primeiro ano, com tarifa de 12% para os volumes dentro da quota e sobretaxa de 55% para os volumes excedentes, resultando em tarifa total de 67% fora da quota. Em 2025, as importações chinesas de carne bovina brasileira somaram cerca de 1,7 milhão de toneladas, o equivalente a 48,3% do volume exportado. Nesse cenário, passam a ser necessários ajustes ao longo de toda a cadeia, da produção à exportação, para evitar impactos mais amplos.

Relação comercial histórica baseada na previsibilidade e no cumprimento de requisitos sanitários elevados

A Associação e a CNA destacam que “as exportações brasileiras para a China são fruto de uma relação comercial construída ao longo de anos, baseada em fornecimento regular, previsibilidade e estrito cumprimento dos requisitos sanitários e técnicos acordados entre os dois países. A carne bovina brasileira, reconhecida por sua qualidade, exerce papel complementar no abastecimento do mercado chinês e contribui para a estabilidade da oferta ao consumidor”.

No comunicado, as duas instituições destacam que a cadeia da pecuária bovina tem papel central na economia brasileira, levando renda a milhares de municípios e sustentando cerca de 7 milhões de empregos diretos e indiretos. Aproximadamente 70% da carne bovina produzida no Brasil é destinada ao mercado interno, enquanto cerca de 30% é exportada, evidenciando o caráter complementar das exportações e sua importância para o equilíbrio e o funcionamento da cadeia pecuária nacional.

A ABIEC e a CNA concluem afirmando que seguirão acompanhando a implementação das medidas, atuando diretamente junto ao Governo Brasileiro e às autoridades chinesas para reduzir os danos que essa sobretaxa causará aos pecuaristas e exportadores brasileiros e para preservar o fluxo comercial historicamente praticado.

(*) Com informações da ABIEC e CNA

 

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Prêmio Embratur Visit Brasil é lançado para reconhecer empresas que contribuem para fortalecer imagem do Brasil no exterior

Bruno Reis, Diretor da Embratur, explica prêmio inédito que vai reconhecer ações do trade para promover o Brasil no mundo

Iniciativa avalia diversidade, sustentabilidade, impacto social e governança e homenageia a atuação de empresas, destinos e personalidades que contribuíram com o turismo internacional

Inédito, o prêmio foi criado para celebrar os 60 anos da Embratur e elevar e inovar o padrão das ações de promoção do país

Da Redação (*)

Brasília – Em um cenário de consolidação do Brasil como destino competitivo no mercado internacional, a Embratur vem fortalecendo suas estratégias de promoção turística com foco em resultados concretos, inteligência de mercado e sustentabilidade. É nesse contexto que surge o Prêmio Embratur Visit Brasil, uma iniciativa inédita realizada em parceria com a Revista Exame para reconhecer destinos, empresas e lideranças que contribuem de forma efetiva para fortalecer a imagem do Brasil no exterior.

Ao valorizar boas práticas e experiências bem-sucedidas, o Prêmio Embratur Visit Brasil se consolida como um instrumento para elevar o padrão das ações de promoção internacional do país, estimular a inovação no setor e reforçar o compromisso do Brasil com um modelo de turismo cada vez mais competitivo, responsável e alinhado às tendências globais. É sobre esses objetivos, critérios e impactos esperados que o diretor de Marketing Internacional, Negócios e Sustentabilidade da Embratur, Bruno Reis, fala na entrevista a seguir.

O que é o Prêmio Embratur Visit Brasil?

O Prêmio Embratur Visit Brasil, em parceria com a EXAME, é uma iniciativa criada para reconhecer e valorizar os melhores projetos que contribuem de forma significativa e efetiva para a promoção do turismo brasileiro no exterior. A ideia é destacar ações que realmente fortalecem a chegada de turistas internacionais aos destinos brasileiros.

O que levou a Embratur a criar esse prêmio?

Ele surge em um momento de grande destaque do turismo internacional no Brasil, com recordes na entrada de visitantes estrangeiros. É uma iniciativa inédita, criada para celebrar os 60 anos da Embratur, mas também para elevar e inovar o padrão das ações de promoção do país e reconhecer as melhores estratégias desenvolvidas pelo trade.

Quem pode concorrer e como funcionam as inscrições?

Podem concorrer empresas da cadeia produtiva do turismo, como aeroportos, Convention & Visitors Bureaux, hotéis, companhias aéreas e empresas de tecnologia, além de cidades, estados e regiões turísticas que realizam promoção internacional. Também entram iniciativas de turismo regenerativo sustentável e lideranças femininas do setor.

As inscrições estão abertas e devem ser feitas pelo site oficial do prêmio até 25 de janeiro de 2026.

Quais critérios orientaram a definição das categorias?

Nesta primeira edição, pensamos em categorias que reconhecem os atores com maior interação e visibilidade junto ao turista estrangeiro, que contribuem de forma direta para a promoção internacional do Brasil. Também demos atenção especial ao segmento MICE, aos projetos que fortalecem a reputação sustentável e inovadora do país e ao reconhecimento de lideranças femininas, incentivando a equidade de gênero no setor.

O prêmio traz requisitos transversais de sustentabilidade e diversidade. Como eles funcionam?

Esses critérios garantem que os vencedores representem o conceito de excelência responsável. Não basta ter bons números ou uma campanha criativa. É obrigatório demonstrar impacto social positivo e respeito à diversidade brasileira. A diversidade não é um checklist, mas um valor central. Ações alinhadas à preservação ambiental, à valorização cultural e ao respeito às diferenças fortalecem a imagem do Brasil no exterior e atraem turistas mais conscientes.

Por que criar uma categoria específica para mulheres no turismo?

Essa categoria nasce do reconhecimento do papel fundamental das mulheres no desenvolvimento, na inovação e na promoção do turismo brasileiro. Queremos dar visibilidade às lideranças femininas, valorizar suas trajetórias e incentivar a equidade de gênero no setor. Além dela, também destacamos categorias como Prática Sustentável e Turismo Regenerativo.

Para a Embratur, o que caracteriza uma ação de promoção internacional bem-sucedida?

Uma boa ação precisa estar alinhada ao Plano Brasis. Ela começa com inteligência de mercado e dados concretos, passa por uma atuação integrada entre os atores locais e chega à execução com foco em conversão e resultados mensuráveis. Para a Embratur, uma ação bem-sucedida é aquela que transforma estratégia em impacto real, baseada em evidências e em colaboração.

Existe uma conexão direta entre o prêmio e o Plano Brasis?

Sim. O prêmio reconhece empresas, destinos e personalidades que atuam alinhadas ao Plano Brasis, fortalecendo a imagem do Brasil no exterior e contribuindo para a geração de empregos e divisas no país.

Qual o impacto esperado do prêmio para o trade turístico nacional?

O Prêmio Embratur Visit Brasil funciona como um catalisador estratégico. Ele eleva o padrão de excelência, transforma vencedores em referência de mercado e unifica o discurso do trade com as diretrizes da Embratur. Além disso, fortalece a profissionalização do setor ao integrar diversidade e princípios ESG como requisitos centrais, consolidando um modelo de turismo mais competitivo, inovador e socialmente responsável.

(*) Com informações da Embratur

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Brasileiros com 60 anos ou mais têm preferência pelo turismo religioso, mostra pesquisa do MTur

Pesquisa do Ministério do Turismo em parceria com a Nexus mostra entre esse público, o segmento só perde para turismo de sol e praia

Da Redação (*)

Brasília – Uma pesquisa do Ministério do Turismo em parceria com a Nexus aponta que os brasileiros com 60 anos ou mais são os que mais se interessam pelo turismo religioso e espiritual no Brasil. Enquanto a média nacional de interesse por essa modalidade é de 20%, o índice entre brasileiros da terceira idade sobe para 30%, a maior taxa entre todas as faixas etárias analisadas.

Para esse público, a fé é um fator decisivo na hora de planejar as férias. O turismo religioso ocupa o segundo lugar na preferência dos viajantes 60+, ficando atrás apenas dos destinos de Sol e Praia (34%). Em seguida vêm o turismo cultural/histórico (22%) e o turismo de bem-estar (14%).

O levamento mostra, ainda, que o interesse por roteiros de fé cresce proporcionalmente com a idade: entre os jovens de 18 a 24 anos, apenas 8% demonstraram preferência por esse tipo de turismo. Entre os quem têm 25 a 40 anos, a preferência alcança 16%, e chega a 26% nos brasileiros com idades entre 41 a 59 anos.

Destino preferido

Além das motivações de viagem, o documento traz também os destinos nacionais favoritos dos viajantes brasileiros com 60 anos ou mais. A Bahia lidera o ranking com 22% da preferência desse público. Em seguida, aparecem São Paulo (16%) e Santa Catarina (8%).

A liderança baiana reflete a união das duas maiores paixões dessa faixa etária: o estado é referência tanto no turismo religioso quanto no segmento de Sol e Praia — este último, apontado como o favorito por 34% dos idosos e por 45% da média geral dos entrevistados.

Embora a Bahia seja o destino escolhido, o grupo 60+ é o que menos viajou a turismo em comparação com as faixas etárias mais jovens. Apenas 30% dos maiores de 60 anos disseram terem saído de férias pelo Brasil ou exterior desde 2023. Entre todos os brasileiros, 42% viajaram a turismo nesses últimos dois anos.

Sobre o estudo

A Nexus realizou 5.542 entrevistas domiciliares com cidadãos com idade a partir de 16 anos, nas 27 Unidades da Federação (UFs). A margem de erro no total da amostra é de 2 pp, com intervalo de confiança de 95%. As entrevistas foram realizadas entre 14 e 28 de outubro de 2024.

(*) Com informações do MTur

 

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Nordeste bate recorde de embarques e consolida 2025 como o ano de maior mobilidade aérea da história

Com 18,5 milhões de passageiros embarcados no acumulado do ano, melhor marca em 25 anos reflete o aquecimento da economia e a ampliação da oferta de voos

Da Redação (*)

Brasília – A aviação civil na região Nordeste vive seu melhor momento em duas décadas e meia. Impulsionada pelo aquecimento da economia regional e pela demanda de passageiros, a região registrou, de janeiro a novembro de 2025, a marca histórica de 18,5 milhões de passageiros transportados em voos com origem em seus aeroportos.

O volume é o maior já contabilizado na série histórica da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), iniciada no ano 2000. Os números indicam que esse será o melhor ano da região Nordeste na aviação doméstica e internacional.

Os dados revelam uma mudança de patamar na mobilidade da população e na conectividade dos estados nordestinos. Na comparação com o mesmo período do ano passado, quando 17,6 milhões de pessoas embarcaram nos terminais da região, o crescimento é de quase 1 milhão de novos viajantes. O número indica que mais brasileiros estão tendo acesso ao transporte aéreo, seja para viagens de negócios, visitas familiares ou turismo.

Novembro recorde

O desempenho de novembro confirmou a tendência de alta e serviu como prévia para o fechamento do ano. Apenas no último mês, 1,69 milhão de passageiros iniciaram suas viagens a partir do Nordeste; um recorde histórico para o mês e um salto de cerca de 120 mil embarques em relação a novembro de 2024.

O resultado aponta para um dinamismo econômico que vai além da alta temporada tradicional, mostrando que a demanda por voos na região se mantém aquecida de forma consistente ao longo do ano.

Para o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, os números de 2025 refletem o sucesso das políticas de incentivo à aviação regional e a melhora no poder de compra da população. “Chegar ao final de 2025 com o melhor resultado em 25 anos é a prova de que a mobilidade aérea está sendo democratizada. Quando vemos 18,5 milhões de embarques a partir do Nordeste, estamos vendo uma economia que gira, ampliação do comercio e famílias se reencontrando. Nosso trabalho no Ministério é garantir infraestrutura para que esse crescimento continue. Nosso objetivo é ampliar a aviação à população e conectar o Nordeste a qualquer lugar do Brasil e do mundo com mais facilidade”, afirmou o ministro.

Conexão internacional

Outro fator determinante para o recorde é a internacionalização dos terminais. O Nordeste se consolidou como um hub de saída direta do Brasil, permitindo que passageiros voem para o exterior sem depender de conexões no Sudeste. De janeiro a novembro, mais de 771 mil passageiros decolaram da região rumo a destinos internacionais.

A ponte aérea histórica com a Europa lidera a preferência dos viajantes. Os voos com destino a Lisboa foram, isoladamente, os mais procurados, concentrando cerca de 40% de todo o fluxo internacional que partiu do Nordeste no período. O dado confirma a capital portuguesa como o principal ponto de conexão da região com o continente europeu. Além de Portugal, destinos como Paris, Buenos Aires e Miami também aparecem com força na malha aérea, conectando o Nordeste a grandes centros globais.

Entre os aeroportos, a liderança na emissão de passageiros ficou com Recife (PE), que somou 4,45 milhões de embarques no acumulado do ano (janeiro a novembro). Em seguida, aparecem Salvador (BA), com 3,56 milhões, e Fortaleza (CE), com 2,74 milhões.

Outros destaques regionais também são Maceió (AL) e Porto Seguro (BA), que superaram a barreira de 1 milhão de passageiros embarcados no ano, provando a capilaridade da aviação regional.

(*) Com informações do Ministério de Portos e Aeroportos
 

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DUIMP redefine estratégias de importação e eleva exigência operacional para 2026

Avanço do Portal Único e do Novo Processo de Importação exige preparo de dados e reorganização operacional das empresas

Da Redação

Brasília – Os showrooms de porcelanato nos Estados Unidos passam por uma transformação silenciosa para recuperar relevância diante do avanço do comércio digital. Em vez de competir por preço, o varejo físico investe em experiências sensoriais, ambientes modelo e sistemas de exposição que valorizam porcelanatos de grandes formatos, hoje um dos principais vetores de crescimento do setor.

Nesse ambiente, a consolidação do Novo Processo de Importação e o avanço da Declaração Única de Importação (DUIMP) passam a influenciar diretamente custos, prazos e o grau de risco das operações internacionais.

Para Thiago Oliveira, CEO da Saygo, especialista em comércio exterior, câmbio e estruturação de operações internacionais, a mudança marca um novo patamar de exigência. “O comércio exterior deixou de ser tolerante a falhas básicas. Hoje, um erro de classificação fiscal, uma descrição incompleta ou um cadastro inconsistente têm impacto imediato em prazo, custo e até na relação comercial com fornecedores e clientes”, afirma.

O que muda com a DUIMP no dia a dia das empresas

A DUIMP é o instrumento central do despacho de importação no Portal Único de Comércio Exterior e substitui gradualmente etapas e declarações do modelo anterior. Segundo a Receita Federal, a implementação ocorre de forma faseada, por meio de cronogramas de ligamento e desligamento que variam conforme tipo de operação, órgãos anuentes e integrações com sistemas estaduais.

Na prática, a principal mudança não está apenas na declaração em si, mas na qualidade das informações exigidas. A DUIMP opera de forma integrada ao Catálogo de Produtos e aos atributos por NCM definidos no Siscomex. Isso significa que dados antes descritos de forma genérica passam a ser informados de maneira estruturada, padronizada e reutilizável, reduzindo margem para inconsistências e aumentando o nível de controle da fiscalização.

Por que 2026 tende a ser um ponto de inflexão

A experiência do próprio governo com o Portal Único indica que a digitalização reduz prazos quando as informações são inseridas corretamente desde o início. Avaliações oficiais mostram queda relevante no tempo médio de exportação e importação após a adoção de processos digitais, mas também apontam aumento de exigências quando há divergência de dados.

Esse histórico ajuda a entender por que 2026 tende a ser crítico. Com mais operações migrando para a DUIMP, empresas que não revisaram cadastros, NCMs e descrições comerciais correm maior risco de retenções, exigências complementares e atrasos logísticos. Além disso, a ampliação das integrações com secretarias estaduais da Fazenda fortalece o cruzamento de dados fiscais e aduaneiros, elevando o nível de fiscalização e reduzindo margem para correções tardias.

Como se preparar sem comprometer a operação

A adaptação à DUIMP exige encadeamento de ações, e não mudanças isoladas. O ponto de partida é o saneamento cadastral, com revisão de NCM, padronização de descrições e preenchimento correto dos atributos exigidos para cada mercadoria. Essa base alimenta o Catálogo de Produtos e sustenta toda a operação no novo modelo.

Na sequência, é fundamental acompanhar os cronogramas oficiais do Portal Único para identificar quando cada tipo de operação será impactado. Esse mapeamento permite priorizar produtos estratégicos, fornecedores críticos e rotas mais sensíveis, evitando que a obrigatoriedade interrompa o fluxo logístico.

Em paralelo, ganha relevância a definição de responsabilidades internas claras para validação de dados, controle documental e acompanhamento das declarações.

Por fim, a integração entre gestão aduaneira, logística e financeira se torna decisiva. Processos bem estruturados reduzem custos indiretos, melhoram o planejamento cambial e diminuem o risco de paralisações inesperadas. “A DUIMP não é apenas uma mudança de sistema. Ela exige que a empresa trate dados como ativo estratégico”, resume Oliveira.

DUIMP e comércio exterior em 2026 os ajustes que o importador precisa antecipar

Diante do avanço da DUIMP e do aumento do nível de exigência sobre dados e conformidade, especialistas recomendam que as empresas iniciem ainda em 2025 um processo estruturado de revisão interna. Entre os principais pontos de atenção estão:

  • A conferência de NCMs e a padronização das descrições comerciais de todos os produtos ativos;
    • A correta estruturação dos atributos exigidos no Catálogo de Produtos, garantindo aderência às regras do Siscomex;
    • O acompanhamento contínuo dos cronogramas de ligamento e desligamento do Portal Único, para evitar surpresas operacionais;
    • O mapeamento dos órgãos anuentes envolvidos em cada tipo de operação, com atenção às exigências específicas;
    • A definição clara de responsáveis internos por cadastro, validação e conferência documental;
    • A integração entre planejamento aduaneiro, logístico e cambial, de forma a reduzir impactos financeiros e atrasos.

Ao concentrar essas frentes de revisão, a empresa reduz o risco de travamentos operacionais e ganha previsibilidade em um ambiente que passa a cruzar dados de forma automática e em tempo real.

A consolidação da DUIMP tende a premiar quem antecipa ajustes, organiza informações e trata o processo de importação como parte da estratégia do negócio, e não apenas como uma etapa burocrática. Para 2026, a diferença entre atraso e fluidez estará menos no volume importado e mais na qualidade dos dados apresentados desde a origem da operação.

 

 

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Expurgos em Pequim: quando a lealdade política substitui o mérito

Márcio Coimbra (*)

O que se testemunha nos últimos dias de 2025 na China não é o prometido “rejuvenescimento nacional” de Xi Jinping, mas um mergulho em uma paranoia autocrática que remete aos períodos mais sombrios da era Mao Tsé-Tung. O recente expurgo no alto escalão militar — o mais profundo em décadas — expõe as vísceras de um regime que, sob a fachada de força inabalável, parece corroído por uma insegurança interna crônica.

Em dezembro de 2025, a destituição dos generais Lin Xiangyang (Comando Leste) e Wang Qiang (Comando Central) selou um movimento de substituição técnica por lealdade ideológica. As trocas nas frentes sensíveis de Taiwan e da segurança da capital, Pequim, revelam que a competência militar foi relegada ao segundo plano. A remoção de figuras como He Weidong e Miao Hua sob acusações genéricas de “corrupção” confirma que a campanha iniciada em 2012 transmutou-se definitivamente em uma ferramenta de eliminação de rivais faccionais.

Paradoxalmente, essa instabilidade ocorre enquanto a China acelera sua expansão nuclear. Relatórios indicam que o arsenal chinês saltou para 600 ogivas em 2024, com projeção de ultrapassar 1.000 até 2030. A construção de silos de mísseis estratégicos próximo à Mongólia funciona como um escudo de intimidação: um aviso ao mundo para que não interfira nos expurgos internos de Xi. Contudo, essa combinação de comando político instável e poder de destruição sem precedentes aumenta o risco de erros de cálculo globais.

A narrativa oficial da corrupção esconde falhas sistêmicas que afetam a eficácia do Exército de Libertação Popular. Investigações apontam desde a venda de postos até falhas graves na aquisição de equipamentos, incluindo mísseis defeituosos. Ao priorizar oficiais “vermelhos e experts”, Xi Jinping sacrifica a expertise em prol do controle absoluto. O resultado é um ambiente pautado pelo medo e pela paralisia burocrática, onde oficiais evitam iniciativas por receio de serem o próximo alvo da “purificação” partidária.

Essa incerteza estratégica força o Ocidente e os vizinhos asiáticos a recalibrarem suas defesas. Analistas debatem se a purga é um prelúdio para uma ação militar contra Taiwan ou se Xi Jinping, ao descobrir a fragilidade de suas próprias tropas, está apenas tentando evitar um colapso interno. De qualquer forma, a instabilidade no topo do comando chinês reduz a previsibilidade do regime, transformando crises domésticas em riscos de segurança global permanentes.

O isolamento de Xi Jinping no topo do Politburo o torna dependente de um círculo cada vez menor de lealistas, incapazes de confrontá-lo com a realidade. O expurgo de 2025 é o testemunho de um sistema que prioriza a sobrevivência da facção no poder acima da eficácia do Estado. A China de hoje projeta-se como um colosso armado, mas sua estrutura interna revela fissuras profundas: um gigante cuja harmonia é mantida apenas pela força bruta.

(*) Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Conselheiro e Diretor de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig). Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

 

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