O que mantém China e Rússia tão próximas?

Allan Gallo (*)

A relação entre China e Rússia costuma ser tratada como uma aliança improvisada contra o Ocidente, e, embora essa seja uma leitura confortável, ela é insuficiente. O que existe entre Pequim e Moscou é uma convergência estratégica em que a Rússia funciona, cada vez mais, como retaguarda continental, diplomática e energética da ascensão chinesa.

Fato é que, em 2026, a China não precisa da Rússia para se tornar uma potência, mas continua precisando de um ambiente internacional menos hostil para sustentar sua ascensão. É nesse ponto que Moscou se torna útil, oferecendo a Pequim profundidade geopolítica, apoio em temas sensíveis, como Taiwan, e coordenação regional na Ásia Central. Para um país cercado por disputas marítimas no Indo-Pacífico, não ter a Rússia como inimiga já representa um ativo estratégico relevante.

Outro ponto importante é que Moscou aceita a visão chinesa de soberania, na qual estabilidade interna e não intervenção externa prevalecem sobre agendas ocidentais de democratização e direitos humanos. Para Pequim, isso tem enorme valor estratégico, sobretudo porque a Rússia oferece respaldo político e uma linguagem comum baseada em ordem, estabilidade e resistência à hegemonia americana.

Existe também uma complementaridade econômica bastante interessante, pois a China compra energia, matérias-primas e segurança de abastecimento da Rússia. O Petróleo, o gás e o carvão russos reduzem significativamente a vulnerabilidade chinesa diante de eventuais crises marítimas, sobretudo porque, em um cenário de tensão prolongada no Pacífico, possuir um grande fornecedor continental de energia deixa de ser mera questão logística para se tornar elemento central de segurança estratégica.

Do lado russo, a dependência cresce de maneira evidente, já que, isolada do Ocidente e pressionada por sanções, Moscou passou a precisar de Pequim muito mais do que Pequim necessita de Moscou. A Rússia ainda preserva peso diplomático e recursos naturais, mas a China concentra escala econômica, indústria e horizonte estratégico de longo prazo.

Por isso, chamar essa relação simplesmente de “aliança antiamericana” é empobrecer o fenômeno. A Rússia ajuda a China a ampliar seu alcance global sem que Pequim precise assumir todos os custos da confrontação direta. Moscou tensiona, bloqueia, provoca e desgasta. Pequim observa, negocia, compra e avança. É uma divisão de tarefas bastante conveniente.

O erro do Ocidente é imaginar que essa aproximação seja passageira ou mero produto da guerra na Ucrânia, quando, na realidade, ela nasce de interesses estruturais bastante claros, já que a China vê na Rússia uma peça útil para acelerar a transição para uma ordem menos centrada nos Estados Unidos, enquanto Moscou enxerga em Pequim uma forma de evitar a própria irrelevância.

(*) Allan Gallo, professor de Economia e Direito na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) e pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (MackLiber)

 

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Empresas revisam custos financeiros no comércio exterior e mudam relação com bancos

Da Redação (*)

Brasília – Com margens mais apertadas no comércio exterior, empresas brasileiras passaram a olhar com mais atenção para custos financeiros que antes ficavam diluídos na rotina de importação e exportação. Diferenças entre a cotação informada e o valor efetivamente pago, tarifas cobradas durante transferências internacionais e atrasos em pagamentos estão entre os pontos que passaram a pesar mais no caixa de importadores e exportadores.

Em muitos casos, os custos aparecem de forma fragmentada e acabam passando despercebidos ao longo do processo. Empresas que realizam pagamentos frequentes ao exterior passaram a acompanhar mais de perto tarifas bancárias, prazos de liquidação e valores recebidos por fornecedores internacionais.

Empresas passam a questionar custos das transferências internacionais

Esse cenário também mudou a relação das empresas com os serviços financeiros usados no comércio exterior. Nos últimos anos, fintechs especializadas em pagamentos internacionais passaram a crescer entre importadores e exportadores ao oferecer processos mais digitais e maior visibilidade sobre valores cobrados nas transferências.

A procura por esse tipo de serviço aumentou principalmente entre empresas que passaram a questionar cobranças consideradas pouco transparentes em modelos bancários tradicionais, como tarifas aplicadas em diferentes etapas do envio internacional e custos que nem sempre aparecem de forma clara no início da transação.

Além do custo final, fatores como prazo de pagamento, acompanhamento das transferências e facilidade na rotina financeira passaram a influenciar mais a escolha de parceiros financeiros.

Financeiro internacional ganha mais espaço nas decisões das empresas

O tema também deixou de ficar restrito às áreas financeiras. Em empresas com atuação internacional, pagamentos ao exterior, recebimentos internacionais e organização financeira passaram a fazer parte das decisões ligadas ao próprio planejamento do negócio.
Ao mesmo tempo, aumentou a procura por serviços ligados à conformidade regulatória. Com mais empresas atuando fora do país, cresceram também as demandas relacionadas a declarações obrigatórias, capital mantido no exterior e organização patrimonial.

Contas internacionais e sourcing avançam entre importadores

Outro movimento observado no setor é o aumento da procura por contas bancárias internacionais, principalmente nos Estados Unidos e em Portugal. A estrutura vem sendo usada para facilitar recebimentos, agilizar pagamentos a fornecedores e reduzir etapas intermediárias nas negociações internacionais.

Na cadeia de suprimentos, importadores também passaram a recorrer mais a serviços de intermediários.

No segmento logístico, a consolidação de cargas continua sendo uma alternativa para empresas sem volume suficiente para ocupar contêineres completos. O compartilhamento de espaço e a centralização de armazenagem e conferência têm permitido reduzir custos e melhorar a previsibilidade dos embarques.

Remessa Online amplia atuação no comércio exterior

O avanço das fintechs no comércio exterior também abriu espaço para empresas brasileiras ampliarem sua atuação além das transferências internacionais. É o caso da Remessa Online, fintech especializada em pagamentos internacionais para pessoas físicas e empresas, que passou a incorporar novos serviços voltados à rotina de importadores e exportadores.

Além do envio e recebimento de recursos do exterior, a empresa passou a oferecer abertura de contas bancárias nos Estados Unidos e em Portugal, assessoria para conformidade regulatória, suporte para sourcing na China e soluções de consolidação de cargas.

A ampliação acompanha uma demanda crescente de clientes que passaram a buscar menos burocracia, mais controle sobre pagamentos internacionais e maior centralização de serviços ligados ao comércio exterior.

(*) Com informações da Remessa Online

 

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eComex lança Veritas, IA para reforçar compliance e reduzir riscos no comércio exterior

Tecnologia nasce de iniciativa colaborativa e automatiza a auditoria de documentos, identificando inconsistências e evitando autuações

Da Redação (*)

Brasília – A eComex anuncia o lançamento do Veritas, solução baseada em inteligência artificial desenvolvida em conjunto com profissionais que atuam diretamente nas áreas de Comércio Exterior, Trade Compliance, Supply Chain, Sourcing e Logística Internacional. A tecnologia automatiza a auditoria de documentos de Comex, identificando inconsistências, desvios e não conformidades e apontando correções necessárias, com geração de dashboards de compliance em segundos.

Criado a partir de demandas reais da operação, o Veritas lê documentos como fatura comercial, packing list e conhecimento de embarque, cruza dados com regras de negócio e legislação aduaneira e realiza validações contínuas ao longo de todo o processo. Com isso, reduz riscos, aumenta a confiabilidade das informações e contribui para evitar autuações futuras.

O Veritas é uma solução desenvolvida para apoiar operações de comércio exterior em escala global, ampliando a capacidade de auditoria e compliance em diferentes mercados.

A solução nasceu dentro da comunidade de comércio exterior da eComex, a partir da iniciativa “Ideias que Importam”, que reuniu cerca de 15 executivos de diferentes setores da economia, com atuação direta nas rotinas operacionais e estratégicas do Comex. O grupo discutiu desafios práticos da área, com foco em validação documental, gestão de risco e escalabilidade das operações.

Foi nesse contexto que surgiu a proposta do Veritas, a partir da necessidade de ampliar a capacidade de auditoria com mais consistência e inteligência.

“O Veritas é resultado de uma construção feita dentro da operação, a partir de quem vive os desafios do dia a dia. A gente mergulhou nesses processos para entender onde estavam as vulnerabilidades e desenvolveu uma solução capaz de atuar diretamente nesses pontos críticos”, afirma André Barros, CEO da eComex.

Novos desafios operacionais

O comércio exterior opera hoje em um cenário de alta complexidade, com grande volume de documentos, múltiplas exigências regulatórias e pressão por eficiência. Nesse contexto, inconsistências ao longo da cadeia são recorrentes, desde a origem das informações até o envio ao governo, especialmente em operações que ainda dependem de validações manuais ou amostrais.

“O principal gargalo sempre foi a falta de capacidade para dar conta do volume de análises. São muitos detalhes e pontos de validação”, afirma Regiane Joazeiro, Head of Customs da Siemens. “Com o Veritas, passamos a ter mais controle sobre a auditoria e mais segurança na gestão de risco, incluindo programas como o OEA. ”

“A gente não tinha estrutura para validar 100% dos processos, e trabalhar por amostragem já não era suficiente para o nível de risco da operação”, afirma Daniela Killner, Head de Customs & Excise LAC da Diageo. “O Veritas traz escala e consistência para a auditoria, mas o principal ganho está na inteligência gerada: os dados passam a retroalimentar a operação e ajudam a identificar oportunidades de melhoria contínua.”

Fiscalização mais automatizada exige novos níveis de controle

Com o avanço da digitalização, a fiscalização governamental tem se tornado cada vez mais orientada por dados e automatizada, com uso de sistemas que realizam cruzamentos e análises de risco em larga escala.

Nesse cenário, garantir a qualidade, consistência e rastreabilidade das informações deixa de ser apenas uma exigência operacional e passa a ser um fator crítico de gestão de risco.

“O que muda não é só o volume, mas o nível de exigência sobre os dados. O risco deixa de estar em eventos isolados e passa a estar na estrutura da informação. O Veritas permite que as empresas atuem preventivamente, validando seus dados antes que eles gerem impactos”, explica Barros.

Inteligência aplicada à auditoria

O Veritas transforma a auditoria em um processo contínuo, completo e rastreável. Com apoio de inteligência artificial, a solução interpreta, estrutura e cruza dados automaticamente, aplicando regras parametrizáveis definidas de acordo com os critérios de cada operação.

“A auditoria precisa acontecer em diferentes momentos do processo, antes e depois das etapas críticas, para garantir consistência das informações. O desafio sempre foi conseguir fazer isso de forma completa”, afirma Jaquelyne Abrahim, cofundadora da D2P (startup de comércio exterior adquirida pela eComex em 2024) e executiva de inovação da eComex.

A tecnologia prioriza inconsistências com base em impacto e criticidade, permitindo uma atuação direcionada sobre os riscos mais relevantes. Os resultados são consolidados em dashboards e relatórios de compliance, oferecendo visibilidade clara da operação e suporte à tomada de decisão.

“Com o volume que temos, a auditoria manual acaba sendo limitada e, muitas vezes, amostral. A necessidade era conseguir analisar 100% das operações, tanto no pré quanto no pós-registro”, afirma Cristina Simões, Gerente de Importação da Mondial. “Na prática, isso traz mais controle e previsibilidade, além de liberar o time de atividades operacionais para atuar de forma mais estratégica. Também passamos a ter indicadores mais claros sobre fornecedores e processos, o que ajuda a direcionar melhor a gestão.”

Mais previsibilidade e conformidade

A solução atua ao longo de toda a jornada operacional, com auditoria pré e pós-registro, gestão de alertas e suporte à manutenção de programas estratégicos como o Operador Econômico Autorizado (OEA).

Altamente parametrizável, o Veritas se adapta às regras de negócio e aos critérios de compliance de cada operação, promovendo maior controle, transparência e consistência dos dados.

“O governo está cada vez mais eficiente no uso de dados. O que estamos fazendo é dar às empresas o mesmo nível de sofisticação, para que operem com mais segurança, previsibilidade e controle”, conclui Barros.

A solução foi apresentada oficialmente no dia 29 de abril, durante evento da eComex que reuniu profissionais e especialistas do setor.

(*) Com informações da eComex

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Tarifas estão redesenhando as regras do comércio global, aponta relatório da Infios

Nova pesquisa mostra que tarifas estão se tornando uma variável de execução em tempo real, levando líderes a experimentar novas rotas, mudar modais de transporte e transformar a conformidade em vantagem competitiva

Da Redação (*)

Brasíoia – A Infios, líder global em execução inteligente de cadeias de suprimentos, publicou hoje um novo relatório de pesquisa proprietária, “The Rise of the Tariff-Optimized Supply Chain: Inside the New Rules of Global Trade”, que demonstra como a política tarifária dos EUA em 2025 provocou uma ruptura estrutural no comércio global e mudou permanentemente a forma como as empresas executam suas cadeias de suprimentos.

Com base em análise ano a ano¹ de mais de um milhão de registros de importação americanos, o relatório conclui que as tarifas deixaram de ser uma linha de custo previsível. Elas são uma variável de execução ativa, gerenciada pelas empresas por meio de classificação, seleção de modal, roteamento, armazenagem e sequenciamento financeiro.

“Na Infios, um dos nossos princípios norteadores é o Thinking Ahead — ajudar os clientes a antecipar mudanças em vez de reagir a elas após o fato”, afirmou Ed Auriemma, CEO da Infios. “Esta pesquisa evidencia como os padrões do comércio global estão evoluindo e onde as empresas estão ajustando rotas, modais de transporte e estratégias de execução em resposta a esse cenário. As organizações que identificarem essas mudanças cedo e responderem com agilidade estarão mais bem posicionadas para garantir uma execução sem interrupções.”

O relatório identifica duas fases distintas de resposta. No período de choque inicial, os importadores experimentaram o chamado “panic routing” — mudanças emergenciais de modal e surtos temporários de uso do United States-Mexico-Canada Agreement (USMCA). A faixa de alíquotas acima de 50%, praticamente inexistente antes de 2025, disparou antes de se estabilizar em um patamar menor, porém ainda elevado.

Com a urgência sobrepondo-se à disciplina de custos, as participações do frete aéreo e do frete rodoviário aumentaram, tornando a velocidade a prioridade central. Com o tempo, os comportamentos que se consolidaram resultaram em um redesenho estrutural e deliberado da execução do comércio global.

“O que estamos observando não é apenas uma mudança nas fontes de fornecimento ou no mix de fornecedores. É uma transformação fundamental na forma como o comércio é executado”, disse Don Mabry, SVP, Global Trade Solutions da Infios. “As tarifas introduziram um nível de volatilidade que as empresas não conseguem mais gerenciar com ajustes periódicos ou processos manuais. As organizações capazes de perceber mudanças cedo, avaliar opções rapidamente e reconfigurar seus caminhos de execução vão superar aquelas que operam em sistemas rígidos e de caminho único, projetados para um mundo mais estável. As organizações que tratam a execução comercial como uma disciplina dinâmica — e não como uma função de retaguarda — são as que estão conquistando vantagem competitiva duradoura.”

Entre os principais achados, destacam-se:

  • As alíquotas efetivas chegaram a ser de 20% a 80% mais altas em algumas categorias devido ao acúmulo de tarifas (tariff stacking).
  • O frete aéreo aumentou aproximadamente 12 pontos percentuais e permaneceu elevado, enquanto o frete marítimo caiu cerca de 10 a 12 pontos sem recuperação, sinalizando que a escolha do modal passou a funcionar como seguro contra riscos de política comercial, não apenas como otimização de custos.
  • O frete rodoviário cresceu aproximadamente 8 pontos, refletindo o movimento sustentado de nearshoring e a demanda por cadeias de suprimentos mais estáveis e de menor distância.
  • O uso de armazéns alfandegados (bonded warehouses) saltou de aproximadamente 10% para 16–18% dos registros e continuou crescendo, sinalizando que o diferimento de tributos aduaneiros se tornou prática corrente.
  • A complexidade de classificação na Harmonized Tariff Schedule (HTS) praticamente dobrou, passando de cerca de 6 para 11,6 sequências por registro — levando muitas organizações para além do que os fluxos manuais de conformidade conseguem suportar.
  • O valor dos embarques cresceu aproximadamente 78%, enquanto o número de registros caiu cerca de 7%, indicando consolidação e um “frete mais inteligente”, não um recuo no comércio.

Cadeia de suprimentos em movimento

Nem toda a redistribuição de fontes de fornecimento ocorreu da mesma forma. Bens de consumo e manufatura leve diversificaram-se em relação à China; produtos químicos de especialidade e componentes industriais permaneceram dependentes de suas origens habituais, independentemente da exposição tarifária. Ao mesmo tempo, corredores comerciais inteiramente novos surgiram, enquanto outros entraram em colapso sob a pressão das políticas adotadas.

Os dados revelam um cenário de cadeia de suprimentos em movimento: novos corredores se abrindo, rotas inviáveis sendo abandonadas e sinais incipientes de relocalização industrial — fazendo da inteligência de rotas um ativo estratégico, e não um detalhe logístico secundário.

A análise da Infios conclui que esta não é uma história de fornecimento, mas de execução. Em um ambiente de política comercial volátil, a flexibilidade supera a eficiência, e a precisão na execução é determinante. As empresas que prosperam serão aquelas capazes de perceber mudanças cedo, avaliar opções rapidamente e reconfigurar caminhos de execução antes que as condições as forcem a agir.

O relatório apresenta uma definição consistente para este novo modelo operacional: a tariff-optimized supply chain — cadeia de suprimentos otimizada para tarifas —, que trata as alíquotas como uma variável de execução ativa, gerenciada por meio de classificação, seleção de modal, roteamento, armazenagem e sequenciamento financeiro, em vez de tratá-las como um custo fixo a ser absorvido. Em um ambiente onde a volatilidade é estrutural, essas capacidades serão o que diferenciará os líderes no comércio global.

Para ler o relatório, acesse www.infios.com

¹Períodos de maio a dezembro e de julho a dezembro de 2024 e 2025 foram comparados entre si.

(*) Com informações da Infios

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Porto de Santos se expande: o que muda para o comércio exterior brasileiro?

Murilo Freymuller (*)

O Porto de Santos voltou ao centro das discussões estratégicas do comércio exterior brasileiro. Em fevereiro de 2026, o governo federal autorizou a ampliação da área terrestre do maior porto da América Latina em 56%, uma medida que redesenha o futuro logístico do país e abre espaço para novos investimentos privados, expansão operacional e aumento da competitividade exportadora brasileira.

Por onde circula cerca de 30% de toda a corrente comercial nacional, Santos funciona como um verdadeiro termômetro da economia. Soja, minério, café, automóveis, combustíveis, produtos industrializados e bens de consumo passam diariamente pelo complexo portuário, movimentando bilhões de dólares em operações internacionais. A nova portaria do Ministério de Portos e Aeroportos amplia a chamada poligonal do porto de 9,3 para 14,5 quilômetros quadrados em área terrestre, incorporando ao complexo aproximadamente 17,2 milhões de metros quadrados entre áreas terrestres e aquáticas.

Na prática, a decisão cria a base regulatória necessária para que novos terminais, retroportos e estruturas logísticas sejam instalados ao longo dos próximos anos. Embora a expansão não represente obras imediatas, ela sinaliza ao mercado que Santos continuará sendo prioridade estratégica para o crescimento do comércio exterior brasileiro.

A ampliação incorpora regiões consideradas fundamentais para o futuro operacional do porto. Entre elas está o Largo do Caneu, uma extensa área greenfield com cerca de 5 quilômetros quadrados e potencial para receber grandes terminais e até uma futura Zona de Processamento de Exportação (ZPE). Também passam a integrar oficialmente o complexo a região da Alemoa, voltada para granéis líquidos, e Monte Cabrão, destinado a atividades retroportuárias e logísticas.

A possibilidade de implementação de uma ZPE dentro do perímetro portuário é um dos pontos mais relevantes da expansão. O modelo permitiria que indústrias processassem matérias-primas próximas ao cais e exportassem produtos acabados com benefícios tributários e menor custo logístico, reduzindo etapas operacionais e aumentando eficiência na cadeia exportadora.

Apesar do potencial transformador, é importante separar a expectativa de realidade operacional. A ampliação da poligonal não significa que novos terminais entrarão em funcionamento no curto prazo. As licitações estão previstas apenas para 2027, seguidas por negociações com operadores privados, captação de investimentos e execução das obras. O impacto concreto sobre capacidade operacional e redução de custos deve ocorrer apenas no médio e longo prazo.

Hoje, Santos ocupa uma posição paradoxal no sistema logístico nacional. Ao mesmo tempo em que é o principal hub portuário do país, também é um dos mais caros para operar. Estudos do setor apontam que o custo de movimentação de contêineres no porto supera em média 21,5% os valores

praticados em outros terminais brasileiros. Ainda assim, para grande parte das empresas, abandonar Santos não é economicamente viável.

A explicação está na geografia industrial brasileira. Aproximadamente 90% do parque industrial paulista está localizado a menos de 200 quilômetros do porto. Além disso, estados como Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul integram diretamente sua área de influência logística. Em muitos casos, trocar Santos por outro porto significaria aumentar distâncias rodoviárias, elevar custos internos e reduzir eficiência operacional.

Nesse contexto, a expectativa do mercado é que a entrada de novos operadores privados aumente a concorrência e pressione tarifas para baixo ao longo do tempo. Mais terminais disputando cargas tendem a gerar maior equilíbrio competitivo, embora esse movimento dependa também de regulação adequada e eficiência operacional futura.

Outro ponto decisivo será a capacidade de modernização da infraestrutura de acesso ao porto. Atualmente, corredores logísticos como a Via Anchieta já operam sob forte pressão, com congestionamentos frequentes que impactam diretamente o escoamento de cargas. Sem investimentos consistentes em rodovias, ferrovias e acessos urbanos, a expansão portuária corre o risco de criar novos gargalos em vez de solucioná-los. Obras no entorno de Santos já avançam com recursos do Novo PAC, mas o ritmo de execução será determinante para o sucesso da expansão.

Do ponto de vista cambial, a ampliação do Porto de Santos reforça uma tendência estrutural importante: o crescimento gradual da participação brasileira no comércio internacional. Uma infraestrutura portuária mais robusta tende a ampliar o fluxo de exportações e importações, aumentando também a circulação de divisas, contratos de câmbio e operações financeiras ligadas ao comércio exterior.

No entanto, no curto prazo, os fatores que mais impactam empresas exportadoras e importadoras continuam sendo a volatilidade do dólar, as tarifas comerciais internacionais e a eficiência na contratação de operações cambiais. A expansão de Santos não elimina esses desafios imediatos, mas fortalece a percepção de que o Brasil continua apostando no aumento de sua capacidade exportadora e logística.

Para empresas que atuam no comércio exterior, o momento atual exige planejamento estratégico. A transformação do Porto de Santos não acontecerá da noite para o dia, mas os movimentos regulatórios já indicam uma mudança estrutural relevante no horizonte logístico brasileiro. E, em cenários de expansão gradual acompanhados de volatilidade cambial, as empresas que antecipam seu planejamento tendem a capturar melhores oportunidades e reduzir riscos operacionais no longo prazo.

(*) Murilo Freymuller, Head Comercial Corporate do Banco Moneycorp.

 

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A Copa mostra que o futuro do dinheiro não passa mais pelo cartão e nem pelas fronteiras

Taísa Bilecki Dias (*)

A Copa do Mundo sempre foi um espetáculo esportivo, mas também se consolidou como um laboratório global de comportamento, inclusive financeiro. Em um ambiente de consumo intenso, multicultural e em tempo real, uma coisa fica evidente: o futuro do dinheiro não passa mais pelo cartão, e tampouco respeita fronteiras. O que antes era uma tendência local, como o sucesso do Pix no Brasil, rapidamente se tornou referência global. A combinação entre pagamentos instantâneos e moedas digitais aponta para uma transformação profunda no sistema financeiro.

Durante décadas, o cartão simbolizou inovação em pagamentos. Hoje, porém, a velocidade e a fluidez deixaram de ser diferenciais, são exigências. Sistemas como o Pix mostram que é possível transferir dinheiro em segundos, 24 horas por dia, com menos intermediários, reduzindo custos e simplificando a experiência do usuário. No Brasil, esse modelo já representa uma parcela relevante das transações e vem diminuindo o uso de dinheiro físico. Para se ter uma ideia, segundo dados do Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas físicas utilizam o sistema, equivalente a 80% da população.

Esse movimento se replica no mundo. Infraestruturas como o FedNow, nos Estados Unidos, e o SEPA Instant, na Europa, consolidam um novo padrão: pagamentos em tempo real como base do sistema financeiro. O próprio mercado americano, historicamente centrado no cartão, acelera agora para acompanhar essa mudança.

Mais do que adoção tecnológica, trata-se de uma nova arquitetura, sair de um modelo dependente de múltiplos intermediários para outro baseado na conexão direta entre contas. O resultado é menor custo para empresas, melhor fluxo de caixa e menos fricção para o consumidor, algo essencial em contextos como a Copa do Mundo, em que pagar precisa ser tão rápido quanto consumir.

Se os pagamentos instantâneos redefinem a infraestrutura, as moedas digitais de bancos centrais (CBDCs) prometem ir além, transformando o próprio conceito de dinheiro. Com liquidação imediata, menor custo e maior rastreabilidade, essas iniciativas podem viabilizar transações internacionais em tempo real e ampliar a inclusão financeira. Integradas a dispositivos e plataformas digitais, tornam o dinheiro cada vez mais invisível e até programável.

A Copa como termômetro do futuro

Em eventos como a Copa, todas essas tendências se encontram: múltiplas moedas, alto volume de transações e necessidade de agilidade extrema. Sem contar que empresas, restaurantes e lojas de departamento de grande porte e presentes nos EUA já estão garantindo o seu espaço e acoplando o Pix no negócio, como é o caso do Boteco do Manolo, Summit Visa, Boteco Restaurant, Yes Mega Store e MCA Transportation.

Nesse cenário, o cartão expõe suas limitações: taxas elevadas, liquidação não imediata e dependência de múltiplos intermediários. Já os pagamentos instantâneos e, futuramente, as moedas digitais oferecem exatamente o oposto: simplicidade, velocidade e eficiência. Mais do que uma evolução tecnológica, estamos diante de uma mudança cultural. O consumidor não quer mais escolher “como pagar”, ele quer que o pagamento simplesmente aconteça.

A Copa escancara essa transformação: o dinheiro deixa de ser físico, deixa de ser cartão e passa a ser fluxo. Um sistema invisível, integrado e em tempo real, que conecta pessoas, empresas e países O cartão não desaparece, mas perde protagonismo, torna-se apenas mais uma interface em um ecossistema muito maior. Nesse novo jogo, quem ainda depende do “passar o cartão” já está jogando o campeonato errado.

(*) Taísa Bilecki Dias – Head de câmbio do Braza Bank

 

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Podemos esperar uma nova revolução cubana?

Leo Braga (*)

A vida em Cuba não está nada fácil. O exercício de sufocamento a que está submetido o regime cubano e, pior ainda, o povo cubano, ganhou em 20 de maio mais um impulso. Marco Rubio, o Secretário de Estado dos EUA (cargo equivalente ao de Ministro de Relações Exteriores, no Brasil), fez um discurso em espanhol, um recado direto aos moradores da ilha. Sua fala tratou da aposta numa “nova Cuba”, em que a soberania residiria (ou residirá) no próprio povo cubano e não na oligarquia militar do país. Para incentivar, a proposta de enviar aos cubanos USD 100 milhões. É quase, ou é mesmo, uma fala de coragem e de esperança. Mas, cabe reflexão. Sempre.

A fala de Rubio foi em tom sereno, manifestando importar-se com o povo cubano. Falar em espanhol, imputar a situação de penúria em que se encontra Cuba e exortar o povo cubano a tomar as rédeas de sua vida civil e política é mais do que discurso normativo e voltado a um mundo de liberdade, de escolha e de autodeterminação. É tudo isso, sem dúvida. Mas, é também a parte razoável da gestão Trump nessas constantes demonstrações de morde e assopra. O difícil é saber a ordem dos movimentos: por último, Trump vai morder ou assoprar?

Se é fácil compreender que o governo norte-americano morde e que assopra, difícil é saber o que se fará no final. No caso da Groenlândia, após ameaças de tomar o território ou de comprá-lo, Trump assoprou – dada a resistência dos europeus. No caso da Venezuela, quando fez a extração do presidente Maduro, mordeu. Com o Irã e a situação no Estreito de Ormuz, o movimento é mais complexo, porém, definitivamente, não mordeu: não mobilizou tropas no terreno em conflito aberto com o Irã. Com a China, na última semana, também foi mais sossegado e otimista: assoprou.

Mas, Cuba é diferente. Como disse uma vez Porfirio Díaz, então presidente e ditador mexicano no final do século XIX, “Pobre México! Tão longe de Deus e tão perto dos EUA”. Cuba está muito perto dos EUA. Situada no chamado Triângulo de Mahan ou Triângulo do Caribe, Cuba constituiu ameaça existencial aos EUA por aproximadamente 40 anos, quando o mundo estava ainda na guerra fria, e americanos e soviéticos disputavam o poder mundial. Essa é a primeira consideração: os EUA estão mais propensos a morder que assoprar.

No já avançado fim da guerra fria, três décadas atrás, ocorreram duas coisas, talvez uma em função da outra. Um desinteresse dos EUA pela América Latina e Caribe, talvez em função do “desencantamento do mundo” e de uma política americana de smart power (estar presente onde importa e não em todo o mundo) nas primeiras duas décadas dos anos 2000. Isso, curiosamente ou não, foi acompanhado pelo movimento de onda rosa e seus governos progressistas na região, que favoreceu narrativas e posicionamentos políticos contra-hegemônicos. Essa é a segunda consideração: a famosa “negligência salutar” dos EUA em relação à América Latina e Caribe.

Por sua vez, a aproximação da China com a região incentivou que a posição política, de afastamento também da região em relação aos EUA, fosse complementada pela aproximação político-ideológica (comunista) e econômica (liberal) chinesa. Agora, a maior parte dos países da região tem na China o seu maior parceiro comercial naquilo que foi a ampliação da Nova Rota da Seda chinesa, agora, chegando até aqui sob o olhar pouco atento dos EUA. Mas, num mundo de recursos escassos, de pandemia, de cadeias globais de valor de reestruturando em movimento de re-shoring, near-shoring e friend-shoring, o Tio Sam “colocou suas barbas de molho”. Essa é a terceira consideração: com a complicada e sensível logística global, “o império contra-ataca” e os EUA se voltam à América Latina e Caribe.

Ainda, cabe considerar a imagem que nos passa o líder norte-americano: ousado, vaidoso, feroz e audaz; muito corajoso, um tanto inconsequente (será?); no mínimo, polêmico, senão, incompreendido. Cabem muitos adjetivos a Trump. Cabe também o senso de oportunidade a ele e à sua equipe. Talvez seja a hora de haver entendido a distribuição do poder mundial ou sua redistribuição em curso para cuidar da questão cubana – já se cuidou da venezuelana. Neutralizar ou dificultar a presença chinesa na região é objetivo estratégico maior dos EUA. É menos sobre Cuba, mas aquilo que Cuba pode significar de projeção de poder chinês. Essa é a quarta consideração: “China, go home!”. Para os EUA, é necessário afastar a China.

Mas, por que fazer isso mordendo se é possível fazer assoprando? A tentativa fracassou, até agora, no Irã, quando os EUA tentaram encorajar o povo iraniano contra um regime democrático-ditatorial-militar. Não deu certo. Mas, será que não pode dar certo com Cuba? Afinal, quem se importa com Cuba? China, Irã, Rússia, Coreia do Norte? Venezuela está cooptada e não é mais um apoio político e econômico ao país. México foi convencido a cortar seu apoio de petróleo à Cuba. E aqueles que estão fora da região têm muito pouco a ganhar ou têm outras prioridades. Cuba importa aos EUA, isso, sim!

Mas, Cuba também importa aos cubanos! E é isso o que Marco Rubio está tentando dizer com tom emocional, quase cativante e, também, pragmático: que ao povo cubano, cabe seu próprio destino. Isso pode aproximar Cuba dos EUA e, ao invés de uma invasão e ocupação americana na ilha cubana, acabar se transformando numa arriscada e desastrosa aventura. Trump não está mordendo Cuba, ainda. E isso é a janela de oportunidade ou para o regime cubano entender o movimento norte-americano e se proteger – mas, como se não dispõe de recursos suficientes? – ou para o povo cubano fazer uma nova revolução e fazer surgir uma nova Cuba.

(*) Leo Braga, Professor de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio

 

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Brasil é o terceiro principal destino mundial dos investimentos estrangeiros, segundo levantamento da OCDE

País registrou ingresso de US$ 77 bilhões em capital produtivo e ficou atrás apenas de Estados Unidos e China; missões internacionais impulsionaram R$ 250 bilhões em anúncios de investimentos

Da Redação (*)

Brasília – O Brasil consolidou posição de destaque no cenário macroeconômico global ao se tornar o terceiro maior destino de Investimento Estrangeiro Direto (IED) do mundo em 2025. De acordo com dados preliminares de fluxo comparado divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o país atraiu o montante expressivo de US$ 77 bilhões em capital produtivo ao longo do último ano.

O resultado representa avanço histórico para o mercado nacional, que tradicionalmente oscila entre a quinta e a sexta colocação no ranking mundial de recepção de investimentos. Na nova listagem, o Brasil foi superado apenas pelas duas maiores potências econômicas do planeta: os Estados Unidos e a China.

Para garantir a precisão analítica do fluxo de economia real, o levantamento da OCDE desconsidera os dados de jurisdições financeiras que funcionam majoritariamente como trânsito de capital, como Hong Kong e Singapura. Sob esse critério, o desempenho brasileiro superou economias maduras da Europa, como a Alemanha e o Reino Unido.

Missões internacionais alavancam R$ 250 bilhões em investimentos

Esse posicionamento de destaque é reflexo direto de uma estratégia assertiva e coordenada de diplomacia presidencial e promoção comercial. Nos últimos três anos, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Atração de Investimentos (ApexBrasil), em parceria com o Ministério das Relações Exteriores (MRE) e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), liderou uma sólida agenda de reaproximação com os mercados globais.

Ao todo, foram realizadas 22 missões empresariais de alto nível acompanhando o presidente Lula e outras cinco missões com o vice-presidente Geraldo Alckmin. Esses encontros estratégicos contaram com a participação ativa de ministros de Estado e mobilizaram mais de 10 mil empresários, tanto brasileiros quanto investidores estrangeiros.

Essas comitivas atuaram como plataformas cruciais para a abertura de novos mercados e consolidação de parcerias de longo prazo, resultando no anúncio histórico de R$ 250 bilhões em novos investimentos planejados para o Brasil durante as agendas.

Liderança entre os países em desenvolvimento

O reposicionamento do Brasil ganha relevância ainda maior quando comparado a mercados emergentes de perfil semelhante. Economistas apontam que a real base de comparação para o teto de investimentos produtivos na América Latina deve ser feita com parceiros regionais e concorrentes diretos, como o México e a Colômbia.

Neste recorte, o país mais próximo do Brasil em 2025 foi o México, que ocupou a sétima posição global. O distanciamento nominal e a vantagem na posição relativa demonstram a forte atratividade e a confiança que o ambiente de negócios brasileiro reconquistou perante o investidor internacional.

Retomada global e o papel dos investimentos chineses

O relatório da OCDE também revelou uma reativação expressiva na circulação de capital internacional, com os fluxos globais registrando uma expansão de 15% em 2025 na comparação com o ano anterior. Entre os principais emissores (exportadores) de capital para o mundo, destacaram-se os Estados Unidos, o Japão e a própria China.

A dupla dinâmica da China — que atua simultaneamente como um dos maiores receptores e um dos principais emissores de investimentos do planeta — reflete-se diretamente na balança brasileira. O aporte de capital chinês tem sido um dos grandes motores para a neoindustrialização e infraestrutura nacional, com aportes maciços direcionados à transição energética. Exemplos claros dessa movimentação estão na expansão do mercado de veículos elétricos e na consolidação de grandes projetos nos setores de energia eólica e solar em solo brasileiro, setores que têm sido amplamente promovidos pelas rodadas de negócios da ApexBrasil.

Os dados de fluxo global comparado são compilados e divulgados periodicamente por organizações internacionais como a OCDE e a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), complementando as publicações do Banco Central do Brasil, que se restringem aos indicadores internos e não realizam o ranqueamento entre as nações.

(*) Com informações a ApexBrasil

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Entre custo e retorno: a conta (ainda incompleta) da IA corporativa

Gabriela Camano (*)

Estamos vivendo um momento de “déjà vu” corporativo em 2026. Assim como na grande migração para a nuvem, em 2020, o mercado hoje corre para abraçar a Inteligência Artificial (IA) com o mesmo fôlego e, por vezes, a mesma falta de planejamento. O “hype” é inegável: 77% das empresas brasileiras declaram familiaridade com agentes de IA, segundo um estudo. Entretanto, o abismo entre o saber e o fazer é profundo.

Enquanto o vocabulário dos gestores está em dia, a execução prática ainda patina em experimentações que nem sempre encontram o caminho do balanço financeiro. Para que a IA gere negócios de fato, precisamos transitar da fase da curiosidade para a fase da métrica.

Os números ajudam a dimensionar esse descompasso. Um levantamento com cerca de 300 implementações corporativas apontou que aproximadamente 95% dos pilotos de IA não geram impacto mensurável em P&L. Em paralelo, outros dados indicam que 29% das empresas da Fortune 500 já possuem algum produto de IA em produção.

As duas estatísticas não se contradizem: elas medem coisas diferentes. Estar em produção significa uso ativo; gerar negócio implica impacto financeiro verificável. Entre um e outro, há um intervalo que ainda não foi plenamente resolvido pelas organizações.

Esse intervalo também aparece nos dados brasileiros. Embora 77% das empresas declarem familiaridade com agentes de IA, apenas uma fração implementa casos reais – como geração de dashboards (43% conhecem, 14% usam) ou automação de relatórios (35% conhecem, 8% usam). A familiaridade avançou mais rápido do que a execução. E, sem execução consistente, não há geração de receita ou ganho operacional relevante.

Ao mesmo tempo, onde a IA funciona, os resultados podem ser expressivos, ainda que menos frequentes do que a narrativa sugere. Um importante estudo dos EUA analisou 51 implementações bem-sucedidas e identificou padrões importantes: 61% tiveram tentativas fracassadas anteriores, e 77% enfrentaram desafios ligados a custos invisíveis, como mudança de processos, qualidade de dados e governança. Ou seja, o valor existe, mas ele é caro, iterativo e depende menos da tecnologia em si do que da capacidade organizacional de absorvê-la.

Assim como ocorreu na migração para a nuvem, a IA está criando uma camada de consumo – de dados, processamento e, principalmente, custo. O uso de modelos de linguagem em larga escala (LLMs) implica despesas recorrentes, muitas vezes em dólar, que nem sempre estão sob controle ou governança clara. Em um cenário em que “cada área vira tecnologia”, o risco de um novo “shadow IT”, agora alimentado por IA, cresce, pressionando budgets e dificultando a mensuração de retorno.

A própria economia da IA ajuda a explicar essa tensão. Diferentemente do software tradicional, em que o custo marginal por usuário tende a zero, a IA tem custo direto por uso. Cada interação consome infraestrutura – tokens, energia, processamento. Isso transforma o usuário em carga computacional (“workload”) e desafia modelos clássicos de monetização.

Não por acaso, pesquisas indicam que empresas já gastam, em média, mais de US$ 60 mil por mês com IA, com dificuldade de mensurar ROI em quase metade dos casos. O crescimento do uso, especialmente com agentes que executam tarefas contínuas, tende a ampliar essa complexidade.

Ainda assim, há sinais concretos de geração de valor. Avaliações apontam que funções mais expostas à IA já apresentam prêmio salarial médio de 56%, refletindo ganho de produtividade e escassez de talento qualificado. No nível organizacional, casos específicos mostram reduções significativas de custo e ganho de eficiência, como automações que substituem processos inteiros. Mas esses exemplos ainda são mais exceção do que regra e, muitas vezes, não capturam o custo total envolvido na transformação.

O que precisa evoluir para que os dados sobre geração de negócios sejam mais robustos? Três frentes se destacam. A primeira é governança – especialmente de dados e consumo de IA, com práticas equivalentes ao FinOps, agora aplicadas a modelos e tokens.

A segunda é clareza de propósito: projetos que começam pelo problema de negócio, e não pela tecnologia, tendem a gerar mais valor, como mostram estudos sobre modelos baseados em habilidades. A terceira é maturidade cultural, que envolve desde a capacitação das equipes até a redução do medo e o redesenho de processos.

Há uma mudança estrutural em curso: a transição da IA como ferramenta para a IA como infraestrutura de execução. Isso muda a forma de medir valor. Não se trata apenas de quantos usuários utilizam IA, mas de quanto trabalho ela executa, e com que impacto econômico. Enquanto essa métrica não se consolida, o mercado continuará convivendo com uma dualidade: uma tecnologia amplamente adotada, porém ainda em busca de sua tradução mais consistente em geração de negócios.

(*) Gabriela Camano é Business Director no Brasil da GFT Technologies

 

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Programa Raízes Negras inicia nova etapa de qualificação em comércio exterior com vagas gratuitas em SP, RJ e MG

Ação do programa Raízes Comex amplia oportunidades de formação profissional

Da Redação (*)

Brasília – Pessoas negras terão novas oportunidades de formação em comércio exterior em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais por meio de uma nova etapa do Programa Raízes Comex, iniciativa do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) em parceria com o Senac. As primeiras turmas começam no próximo dia 25 de maio em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Ao todo, serão ofertadas 160 vagas gratuitas para o curso de Assistente de Serviços de Comércio Exterior nas cidades de São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro e Uberlândia.

As primeiras turmas começam em Campinas (SP). Na sequência, novos cursos terão início em São Paulo (capital) e no Rio de Janeiro. Outras turmas estão previstas para o final de maio nas três cidades, enquanto Uberlândia (MG) terá início em junho.

Os cursos são voltados prioritariamente para pessoas negras (pretas e pardas), jovens a partir de 16 anos e e estudantes cursando no mínimo o 2º ano do Ensino Médio. A ação integra a estratégia do governo federal de ampliar oportunidades de qualificação e inserção profissional em áreas ligadas ao comércio internacional.

“O crescimento do comércio exterior brasileiro precisa ser acompanhado pela ampliação de oportunidades, inclusão e diversidade. O Raízes Comex é uma política pública voltada à formação de novos profissionais para atuar em um setor estratégico para o desenvolvimento do país. Ao promover maior diversidade no comércio exterior, a iniciativa também contribui para tornar as empresas mais inovadoras e resilientes”, afirmou a secretária de Comércio Exterior do MDIC, Tatiana Prazeres.

As inscrições estão abertas.

Raízes Comex amplia inclusão e diversidade

Criado pelo MDIC para ampliar oportunidades no comércio exterior e promover maior diversidade no setor, o Programa Raízes Comex conecta qualificação profissional, inclusão produtiva e geração de emprego em uma das áreas mais estratégicas da economia brasileira.

A iniciativa prioriza a formação de pessoas negras (pretas e pardas), jovens e estudantes da rede pública, buscando ampliar o acesso de novos talentos ao comércio exterior.

Além da capacitação gratuita, o programa fortalece a presença de novos profissionais em áreas ligadas à exportação, logística, negócios internacionais e serviços de comércio exterior.

(*) Com informações do MDIC

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