A parceria econômica Brasil-China e seus novos desdobramentos

Fernanda Brandão (*)

Uma comitiva liderada pelo Ministério da Fazenda brasileiro esteve na China entre os dias 24 e 26 de junho com o objetivo de fortalecer a cooperação macroeconômica entre os dois países. O principal objetivo do Ministério com a visita foi entregar às autoridades chinesas a Carta de Apresentação do governo brasileiro, a fim de dar início ao processo de emissão de títulos da dívida pública brasileira em renminbi, a moeda chinesa, no mercado financeiro chinês. O governo busca aumentar a participação do país na economia internacional e diversificar as fontes de financiamento da dívida pública nacional.

A visita também teve como objetivo fortalecer iniciativas de financiamento climático, como o Programa Eco Invest Brasil, a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica (BIP) e o desenvolvimento do mercado regulado de carbono. Para tanto, foram realizadas reuniões com o NDB, o banco de desenvolvimento dos BRICS, e com o AIIB (Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura). O país busca atrair investimentos produtivos, fortalecer a descarbonização da economia brasileira e ampliar sua inserção em cadeias globais de valor.

A China é um importante parceiro econômico do Brasil. Desde 2009, o país é o principal parceiro comercial brasileiro. Entre os principais produtos exportados pelo Brasil para a China destacam-se soja, petróleo e minério de ferro, enquanto o Brasil importa, principalmente, bens manufaturados chineses. Em 2025, o Brasil foi o principal destino dos investimentos chineses no mundo, o que representou um aumento de 45% em comparação com o ano anterior. Contudo, os Estados Unidos ainda são a principal fonte de Investimento Externo Direto (IED) para o Brasil.

A China tem se consolidado como um importante parceiro econômico do Brasil em meio a um cenário de competição geopolítica com os Estados Unidos pela preponderância econômica global. A influência chinesa na América Latina tem crescido em detrimento da influência americana, principalmente pelo fortalecimento de parcerias econômicas com os países da região, incluindo acordos bilaterais de investimento e a posição da China como importante destino das exportações de produtos primários latino-americanos.

Esse movimento tem levado os Estados Unidos a adotar uma postura voltada ao restabelecimento da preeminência de sua influência na região. Em novembro de 2025, o governo Trump deixou claro, em sua Estratégia de Segurança Nacional, que a América Latina é vista como estratégica e fundamental para a segurança nacional dos Estados Unidos.

O esforço americano de reafirmar sua influência na região tem sido marcado pela imposição de tarifas comerciais elevadas aos países latino-americanos, sob o argumento de práticas comerciais desleais que prejudicariam as exportações americanas. Países como Guiana, Guiana Equatorial, Nicarágua e Venezuela receberam tarifas recíprocas superiores aos 10% impostos aos demais países, anunciadas em abril de 2025.

Apesar de inicialmente ter recebido apenas a tarifa geral de 10%, o Brasil passou a enfrentar tarifas adicionais de 40%, sob justificativas diversas envolvendo a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, a regulação das mídias sociais e a alegada ameaça que o Pix representa aos serviços financeiros americanos.

Apesar da elaboração de uma extensa lista de exclusões de produtos brasileiros afetados pelas tarifas e da posterior suspensão, pela Suprema Corte dos Estados Unidos, das tarifas recíprocas, em junho deste ano foram anunciadas tarifas de 25%, após investigação comercial conduzida com base na Seção 301, que deverão entrar em vigor em 15 de julho próximo.

Os Estados Unidos têm aplicado tarifas comerciais elevadas a diversos parceiros com o objetivo de forçá-los a negociar acordos que privilegiem os interesses americanos e reduzam o nível tarifário, embora essas medidas não eliminem as barreiras comerciais impostas ao comércio internacional. Para países que têm os Estados Unidos como um de seus principais parceiros comerciais, essas tarifas podem gerar impactos econômicos significativos.

Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, mas, desde 2025, as exportações brasileiras para o país vêm diminuindo. Em contrapartida, as exportações para a China continuam crescendo e, em 2026, já registraram aumento de 21% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

O fortalecimento da parceria entre China e Brasil não ocorre apenas no comércio e nos investimentos, mas também na crescente presença da moeda chinesa nos ativos de reserva do país e nas transações financeiras. Desde 2023, o renminbi tornou-se a segunda principal moeda presente nas reservas internacionais do Banco Central, superando o euro, embora ainda esteja bastante aquém do dólar.

Entre 2024 e 2025, o volume de importações brasileiras provenientes da China pagas em moeda chinesa aumentou de US$ 1,80 bilhão para US$ 3,81 bilhões, embora isso ainda represente apenas 1,36% das importações brasileiras.

Além disso, o país já conta com instituições financeiras habilitadas a realizar transações em renminbi, como o BOCOM BBM e a filial brasileira do Banco Comercial da China. O BOCOM BBM foi a primeira instituição ligada diretamente ao CIPS, sistema de pagamentos chinês alternativo ao SWIFT, e a primeira a concluir uma operação de crédito em renminbi com uma empresa brasileira.

Neste ano, a XTransfer, plataforma chinesa de pagamentos entre empresas voltada ao comércio exterior, instalou-se no Brasil com o objetivo de facilitar a participação de pequenas e médias empresas no comércio internacional, contribuindo também para ampliar o uso da moeda chinesa nessas transações.

No contexto em que os Estados Unidos se apresentam como um parceiro econômico menos confiável, a diversificação de parceiros torna-se fundamental para fortalecer a resiliência e garantir a continuidade do crescimento econômico nacional. A China tem se consolidado como um importante parceiro em termos de comércio e investimentos, demonstrando disposição para expandir a cooperação econômica com o Brasil, considerado estratégico na região.

As iniciativas promovidas durante a viagem da comitiva do Ministério da Fazenda visam fortalecer as relações entre os dois países. Contudo, uma aproximação cada vez maior com a China certamente continuará a gerar incômodo nos Estados Unidos, que tendem a buscar mecanismos para reafirmar sua preponderância em sua área de influência.

(*) Fernanda Brandão, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana  Mackenzie Rio

 

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Um apelo ao STF

Ives Gandra (*)

Sou advogado há 68 anos e professor universitário há 62. Considerando tantas décadas de atuação, é evidente que convivi e convivo com ministros da Suprema Corte desde a minha primeira sustentação oral, em 1962, quando, inclusive, fui recebido na residência do então ministro Hahnemann Guimarães.

De lá para cá, sempre mantive contato com todos eles — uma proximidade prazerosa que não ocorre atualmente porque, infelizmente, já não consigo mais viajar. Escrevi obras em coautoria com vários ministros e partilho cadeiras em diversas academias literárias e jurídicas com vários deles. Somente com o ministro Moreira Alves, foram 32 livros que publicamos juntos.

Gostaria, entretanto, de tratar de algo que os recentes editoriais e matérias jornalísticas têm criticado duramente, ou seja, o debate público entre os ministros da Suprema Corte. Trata-se tanto de divergências sobre o Código de Ética, que uns Ministros querem e outros não, quanto de ataques públicos entre colegas, prática expressamente proibida pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman).

No momento em que tais divergências são levadas a público, fica demonstrado que esses embates estão afetando a política, a estabilidade institucional e a segurança jurídica. Um exemplo disso é o que a mídia e os jornais comentaram sobre a recente entrevista do ministro Gilmar Mendes no programa Roda Viva da TV Cultura, que acabou gerando inúmeras especulações, a ponto de o povo brasileiro estar tomando partido nesta ou naquela linha de pensamento.

Sou inteiramente favorável que a Suprema Corte recupere o prestígio e a respeitabilidade que possuía no passado e, por isso, faço o apelo, como um velho advogado, para que os senhores ministros do STF voltem a ter uma conduta semelhante àquela que conferiu à Instituição a grande respeitabilidade que possuía. As divergências devem ser internas e não é adequado que sejam levadas a público.

Ora, cultura e valores todos os ministros têm. Posso divergir — e tenho divergido — de várias decisões, mas os debates que estão ocorrendo deveriam se restringir estritamente ao plano jurídico, para não serem explorados pelos jornais como se representassem posições políticas de A, B ou C.

A proposta do ministro Edson Fachin de que se institua um código de ética é, a meu ver, de grande utilidade para todos os integrantes da Suprema Corte. Os ministros André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia também defendem a necessidade dessa normatização. Creio que um código de ética seria de grande utilidade para todos os ministros, atuais e futuros, pois auxiliaria efetivamente os magistrados a se conduzirem perante a opinião pública.

Divergências conceituais e jurídicas devem continuar sendo apresentadas publicamente nas sessões de julgamento, mas os conflitos de comportamento e as discordâncias sobre a forma de agir deveriam, evidentemente, ser tratados de maneira reservada. Mesmo que haja críticas mútuas a fazer, que estas ocorram nas sessões internas e administrativas, permitindo que o perfil do Supremo Tribunal Federal volte a emergir como o da instituição que, no passado, era a mais respeitada do Brasil.

A democracia não existe em função de palavras. Dizer “eu sou democrático”, “eu defendo a democracia” ou “sou contra a crítica àqueles que não querem a democracia” resume-se apenas a palavras. A democracia faz-se com ações, com exemplos. Dizia São Josemaria Escrivá que “frei exemplo é o melhor pregador”.

A melhor defesa da democracia é a estabilidade das instituições e a respeitabilidade que elas possuem perante o povo.

Não estou, evidentemente, pretendendo dar conselhos ou dizer aos ministros o que fazer, mas peço que reflitam, para que o Supremo volte a ser o que era no passado. Afinal, hoje, o povo brasileiro em geral e toda a imprensa apresentam críticas e posições favoráveis ou contrárias, tratando o Supremo Tribunal Federal como se fosse um poder político, e não o guardião da Constituição Federal, que garante a segurança jurídica por ser um poder imparcial e acima de qualquer suspeita.

É exatamente por sempre ter defendido o Supremo Tribunal Federal, desde os meus bancos acadêmicos, que faço esse apelo. Os professores que tive e que pertenceram à Suprema Corte sempre me ensinaram a lutar por ela, pois a garantia dos direitos no país depende de seu tribunal máximo. Se a Suprema Corte perde a respeitabilidade perante o povo, automaticamente a democracia corre risco.

Evidentemente, respeito os meus amigos da Suprema Corte tanto que em meus artigos e nas redes sociais, nunca falo mal de nenhum dos ministros. Posso criticar suas posições, mas nunca critico as pessoas ou a cultura de cada um deles. A Excelsa Corte, contudo, precisa voltar a ser o que era no passado. Só assim teremos, realmente, a defesa do Estado Democrático de Direito e a salvaguarda da democracia.

É, pois, com esse propósito que venho, mais uma vez — respaldado pelos meus 91 anos de idade, 68 de advocacia e 62 de magistério universitário, com livros publicados em 21 países, além do privilégio de pertencer a 42 academias e somar 45 títulos acadêmicos —, demonstrar, sem nenhuma vaidade pessoal, que a minha vida sempre foi inteiramente dedicada ao Direito, razão pela qual dirijo este apelo ao STF em prol de um resgate institucional.

Esse resgate institucional, contudo, não depende de reformas estruturais ou de medidas judiciais complexas, mas sim de um esforço estritamente moral e de conduta. O apelo que aqui se faz é um pedido prático para que se iniciem os debates institucionais, inclusive com a urgente adoção de um código de ética — como bem sugerido pelo ministro Edson Fachin —, de modo que as naturais e salutares divergências jurídicas — bem como os eventuais conflitos pessoais — permaneçam restritas ao ambiente reservado das sessões internas, preservando a imagem da Corte perante a opinião pública.

Dirijo, portanto, este clamor àqueles que são os guardiões máximos da justiça no Brasil para que conduzam o Supremo Tribunal Federal, o Pretório Excelso do nosso País, de volta ao patamar de respeito e admiração que possuía na época do ministro Moreira Alves.

(*) Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).

 

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O futuro do Comex será construído por tecnologia. Mas será liderado por pessoas.

Helenice Sá Silva Lima (*)

Durante muito tempo, o acesso à informação foi um dos principais diferenciais competitivos dos profissionais. Quem tinha mais conhecimento técnico ou acesso às melhores fontes conseguia tomar decisões melhores e ocupar posições estratégicas dentro das organizações.

A internet mudou essa lógica ao democratizar a distribuição da informação. Agora, a Inteligência Artificial acelera uma nova transformação ao democratizar também a produção de conteúdo. Nunca foi tão fácil produzir textos, análises, apresentações ou responder perguntas técnicas.

Nesse novo cenário, conhecimento continuará sendo indispensável, mas deixará de ser suficiente.

Na minha visão, os profissionais que mais gerarão valor nos próximos anos serão aqueles capazes de interpretar cenários, conectar pessoas, construir soluções coletivamente e liderar processos de transformação. Essa mudança é especialmente relevante para o Comércio Exterior, que vive uma das maiores transições de sua história.

A implantação do Portal Único, da DUIMP, da DUE, a digitalização dos processos e o avanço da Inteligência Artificial estão redesenhando a forma como as empresas operam. Não estamos diante apenas de uma mudança tecnológica. Estamos diante de uma mudança de papel dos profissionais que atuam na área.

O especialista em Comércio Exterior deixa de ser apenas um executor de processos para assumir uma posição mais estratégica dentro das empresas.

Foi justamente dessa reflexão que nasceu a Comex Pulse Comm.

Há aproximadamente um ano e meio, a eComex decidiu transformar uma característica que sempre fez parte da sua história em um projeto permanente para o mercado: criar um ambiente de colaboração, relacionamento e desenvolvimento profissional para quem acredita que o futuro do Comércio Exterior será construído de forma coletiva.

Hoje, a comunidade reúne mais de 800 profissionais ativos de Comércio Exterior e áreas correlatas.

Seu objetivo nunca foi apenas compartilhar conteúdo.

A Comex Pulse Comm nasceu para conectar pessoas que desejam elevar suas ideias a um patamar estratégico e assumir um papel protagonista na construção e no fortalecimento do Comércio Exterior brasileiro.

Essa iniciativa reflete uma cultura presente na própria trajetória da eComex. Ao longo de mais de quatro décadas, a empresa evoluiu ouvindo clientes, parceiros, especialistas e profissionais do mercado. Muitas soluções surgiram da troca constante de experiências e da construção conjunta de respostas para desafios reais das operações.

A comunidade representa a continuidade dessa forma de pensar.

Seu propósito é proporcionar um ecossistema colaborativo capaz de promover o crescimento e o sucesso de pessoas e empresas no cenário global do Comércio Exterior.

Sua causa também está diretamente ligada ao momento que vivemos. Reunimos profissionais que buscam compreender essa transformação, encontrar seu espaço nesse novo contexto e desenvolver as competências necessárias para assumir posições de protagonismo em suas organizações.

Isso significa desenvolver muito mais do que conhecimento técnico.

Dominar legislação, processos, acordos internacionais ou tecnologia continuará sendo importante. Mas liderança, comunicação, relacionamento, colaboração, influência e capacidade de mobilizar pessoas passam a ter um peso igualmente relevante.

É justamente o equilíbrio entre essas competências técnicas e humanas que tende a formar os novos líderes do Comércio Exterior.

Para apoiar esse desenvolvimento, a Comex Pulse Comm estruturou diferentes iniciativas ao longo de sua trajetória.

O Beyond Borders promove encontros de mentoria online dedicados às discussões sobre gestão, liderança e desafios do Comércio Exterior. O “Experience Beyond Comex” aproxima profissionais em encontros presenciais que fortalecem relacionamento, networking e confiança entre os participantes por meio de experiências inusitadas. Já o “Ideias que Importam” reúne executivos para discutir problemas concretos do setor e construir soluções de forma colaborativa.

Cada programa possui um formato diferente, mas todos compartilham a mesma essência: criar um ambiente onde pessoas aprendem juntas, compartilham experiências e ampliam sua capacidade de gerar impacto dentro das empresas.

Tenho convicção de que a tecnologia continuará acelerando a transformação do Comércio Exterior. Porém, quanto mais digital se torna o nosso mercado, maior será a importância dos espaços onde as pessoas possam trocar experiências reais, desenvolver repertório, construir relacionamentos e aprender umas com as outras.

Nenhuma Inteligência Artificial substitui a confiança construída entre profissionais, a experiência acumulada ao longo dos anos ou a capacidade de liderar pessoas diante de cenários complexos.

Talvez esse seja o verdadeiro diferencial competitivo da próxima década.

Se você acredita que o futuro do Comércio Exterior será construído por profissionais preparados para colaborar, aprender continuamente e liderar essa transformação, convido você a fazer parte da Comex Pulse Comm.

Hoje já somos mais de 800 profissionais conectados por um mesmo propósito. Será um prazer receber você nessa construção.

Participe da Comex Pulse Comm.

Clique aqui e inscreva-se gratuitamente.

(*) Helenice Sá Silva Lima – Chief Marketing Officer da eComex e idealizadora da Comex Pulse Comm.

 

 

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Manutenção da certificação OEA impulsiona adoção de tecnologia para compliance aduaneiro

Empresas recorrem à auditoria contínua para reduzir riscos, evitar multas e preservar benefícios estratégicos no comércio exterior

Da Redação (*)

Brasília – Conquistar a certificação de Operador Econômico Autorizado (OEA) é um passo estratégico para empresas que atuam no comércio exterior, mas manter esse status tem se tornado um desafio crescente. Com o aumento do volume documental, operações mais complexas e exigências permanentes de conformidade, companhias têm buscado tecnologias capazes de acompanhar suas rotinas aduaneiras em tempo real e reduzir a exposição a riscos regulatórios.

Criado pela Receita Federal, o programa OEA reconhece empresas com alto grau de confiabilidade em seus processos e oferece benefícios como maior agilidade no desembaraço aduaneiro, redução de inspeções físicas e mais previsibilidade logística. Na prática, a certificação permite que cargas tenham prioridade na liberação alfandegária, reduzindo custos e atrasos operacionais. Em contrapartida, exige que as empresas mantenham controles internos rigorosos, documentação consistente e capacidade de demonstrar conformidade contínua.

“Uma empresa certificada pelo OEA precisa comprovar constantemente que mantém processos confiáveis, rastreáveis e em conformidade com a legislação. O desafio é que, à medida que a operação cresce, aumenta também o volume de documentos, fornecedores e processos que precisam ser monitorados”, afirma André Barros, CEO da eComex.

Além da complexidade operacional, o cenário regulatório exige atenção constante. O processo de reavaliação das empresas certificadas tem se tornado mais frequente, ampliando a necessidade de auditoria contínua. Segundo Barros, muitas empresas ainda realizam esse controle por amostragem, o que pode deixar falhas importantes sem identificação. “Pequenas inconsistências entre documentos podem gerar autuações relevantes. Muitas vezes não se trata de fraude, mas de erro operacional. Ainda assim, o impacto para a empresa pode ser significativo, com multas e até a perda da certificação”, diz.

Acompanhamento contínuo

Para responder a esse cenário, a eComex desenvolveu o Veritas, solução baseada em inteligência artificial voltada à auditoria documental em operações de importação e exportação. A ferramenta realiza três níveis de validação: verifica a consistência entre documentos, a aderência à legislação vigente e o cumprimento de regras internas definidas pela própria empresa. O processo é feito em tempo real e cobre 100% da operação.

“O principal diferencial está em substituir a lógica de auditoria por amostragem por um acompanhamento contínuo. O Veritas permite identificar falhas antes que elas se transformem em risco regulatório ou impacto financeiro, fortalecendo o compliance aduaneiro de forma prática e escalável”, afirma Barros.

Embora o tema seja especialmente relevante para empresas certificadas no programa OEA, a necessidade de controle documental rigoroso se estende a todo o setor. Para companhias que buscam crescer com mais segurança e previsibilidade em suas operações internacionais, o uso de tecnologia para validar documentos e acompanhar a conformidade tem se consolidado como parte da estratégia de negócio.

 

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Comércio entre Brasil e EUA atinge o patamar mais baixo da história, mostra o Monitor de Comércio da Amcham

Da Redação (*)

Brasília – O comércio entre Brasil e Estados Unidos somou US$ 36,4 bilhões no primeiro semestre de 2026, uma queda de 12,8% em relação ao mesmo período do ano passado. As exportações brasileiras para o mercado norte-americano no período recuaram 13,0%, para US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações caíram 12,5%, totalizando US$ 19,0 bilhões, segundo a edição de janeiro a junho do Monitor do Comércio Brasil-EUA, elaborado pela Amcham Brasil.

O desempenho levou a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras para 9,4%, o menor percentual da série histórica para um primeiro semestre desde 1997. Na corrente de comércio brasileira, a participação americana também atingiu o menor nível da série, com 11,1%. Apesar da retração, os Estados Unidos permanecem como o segundo principal parceiro comercial do Brasil em bens e maior destino das exportações industriais.

O desempenho contrasta com o crescimento das exportações brasileiras para o mundo (+11,5%) e para parceiros relevantes, como China (+21,9%) e União Europeia (+12,8%) no primeiro semestre de 2026.

“O primeiro semestre confirma que o comércio bilateral atravessa um período de forte pressão e reforça a necessidade de um acordo que evite a aplicação de novas tarifas no âmbito da investigação da Seção 301. Caso sejam implementadas, as sobretaxas poderão comprometer ainda mais as trocas entre Brasil e Estados Unidos”, afirma Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.

A análise da Amcham mostra que os bens submetidos às sobretaxas responderam pela maior parte da retração das exportações brasileiras no semestre. Enquanto as vendas de produtos sobretaxados caíram 16,6%, as exportações de bens sem sobretaxa recuaram 8,7%.

Entre os produtos sujeitos às tarifas adicionais, os itens enquadrados na tarifa de 10% registraram queda de 25,9%, enquanto os produtos abrangidos pela Seção 232 recuaram 6,7%. Os maiores impactos ocorreram em produtos como semiacabados de ferro e aço (-21,7%), caminhões (-46,7%), madeira (-40,5%) e cobre (-37,4%).

Desde a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em fevereiro, que revogou as tarifas adicionais aplicadas com base no IEEPA, o universo de produtos brasileiros isentos de sobretaxas aumentou de 382 para 1.488 itens. Ainda assim, permanecem em vigor tarifas adicionais de 10% (Seção 122) e de até 50% para produtos enquadrados na Seção 232, mantendo elevada a pressão sobre parte relevante da pauta exportadora brasileira.

Queda das exportações é interrompida em junho

Apesar do resultado negativo do semestre, junho apresentou um sinal de melhora. As exportações brasileiras para os Estados Unidos cresceram 3,7% em valor na comparação com junho de 2025, interrompendo uma sequência de dez meses consecutivos de queda. O avanço foi sustentado principalmente pelos produtos sem sobretaxa, que cresceram 35,8%, impulsionados por aeronaves (+299,4%) e óleos combustíveis de petróleo (+89,3%). Já os bens sobretaxados continuaram em retração, com queda de 17,0% no mês.

Exportações industriais caem US$ 1,4 bi

O impacto foi particularmente intenso sobre os produtos industriais. Na comparação entre os primeiros semestres de 2026 e 2025, as exportações do setor para os Estados Unidos caíram de US$ 16,0 bilhões para US$ 14,6 bilhões, US$ 1,4 bilhão a menos.

Mesmo com a retração, a indústria de transformação permaneceu como o principal componente das exportações brasileiras para os Estados Unidos, respondendo por 83,9% das vendas ao mercado americano. Alguns dos principais produtos exportados no semestre no setor com alta nas vendas estão aeronaves (+32,9%), equipamentos de engenharia civil (+23,8%) e máquinas de energia elétrica (+16,0%).

Em contrapartida, produtos como petróleo bruto (-30,4%), café não torrado (-34,8%), produtos semiacabados de ferro e aço (-21,7%) e celulose (-9,4%) registraram quedas expressivas.

Audiência da Seção 301

A divulgação do Monitor ocorre em meio às discussões sobre possíveis desdobramentos da investigação conduzida pelos Estados Unidos no âmbito da investigação Seção 301. Na audiência pública realizada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), na última segunda-feira (6), a Amcham defendeu (link para nota) que o diálogo e a negociação bilateral representam o caminho mais eficaz para tratar das preocupações levantadas pelo governo americano e destacou as consequências negativas das tarifas para a economia dos Estados Unidos.

Confira a integra do Monitor de Comércio – edição do 1º semestre de 2026

(*) Com informações da Amcham Brasil

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Amcham defende negociação para evitar novas tarifas sobre produtos brasileiros em audiência pública nos EUA

Entidade destacou impactos negativos para a economia dos Estados Unidos em caso de aplicação de tarifas sobre o Brasil

Da Redação (*)

Brasília – A Amcham Brasil participou nesta segunda-feira (6), em Washington, D.C., da audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), no âmbito da investigação conduzida pela Seção 301 sobre determinadas políticas e práticas comerciais do Brasil.

Durante a audiência, a entidade argumentou que a proposta de aplicar sobretaxas de até 25% sobre determinados produtos brasileiros tende a elevar custos para a indústria e os consumidores norte-americanos, causar desvio de comércio em favor de concorrentes asiáticos, ampliar o déficit comercial dos Estados Unidos com esses países e enfraquecer a influência econômica e comercial americana no Brasil.

A Amcham reforçou a importância de uma solução negociada entre os dois governos que evite a adoção dessas tarifas, indicando caminhos concretos para o avanço das negociações bilaterais. Entre eles, foram sugeridas a ampliação do acesso a mercados em determinados setores, a cooperação em minerais críticos, a extensão da moratória da OMC sobre transmissões eletrônicas e a agilização do exame de patentes no Brasil.

Tempo para busca de solução negociada

“Embora a investigação esteja na reta final e as negociações sejam complexas, ainda há espaço para que os dois governos intensifiquem esforços em busca de uma solução negociada. A aplicação de novas tarifas seria prejudicial para ambas as economias, com impactos negativos para o setor produtivo e os consumidores dos Estados Unidos, além de perda de competitividade das exportações brasileiras para um mercado crucial”, afirma Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.

A audiência pública representa a etapa final da investigação conduzida pelo USTR. A decisão do governo americano sobre a eventual implementação das medidas está prevista para 15 de julho.

A Amcham Brasil continuará acompanhando a evolução da investigação e das negociações entre os dois governos, de forma a contribuir para a construção de soluções que fortaleçam a relação econômica bilateral.

Acesse a integra da Manifestação da Amcham

(*) Com informações da Amcham

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Painel de Tarifas dos EUA: ferramenta digital da ApexBrasil gera estratégias de diversificação comercial para exportadores

Nova ferramenta digital auxilia empresas a monitorar barreiras comerciais e calcular riscos aduaneiros; em duas décadas, dependência brasileira do mercado americano recuou de 19,1% para 10,8% com avanço rumo ao Sul Global e à União Europeia.

Da Redação (*)

Brasília – As medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos exercem impacto sobre o comércio internacional e exigem atenção dos exportadores brasileiros. Para apoiar o empresariado nacional no diagnóstico de sua exposição comercial e na identificação de riscos, a ApexBrasil lançou o Painel de Medidas Tarifárias dos EUA. A plataforma, interativa e gratuita, organiza informações técnicas em uma interface simples, permitindo que as empresas descubram com rapidez se seus produtos são alvo de sobretaxas ou se contam com isenções no mercado norte-americano.

Diante dos aumentos tarifários aplicados por Washington, as frentes de promoção comercial e de defesa de interesses têm acelerado uma diversificação mercadológica no comércio exterior brasileiro.

Inteligência comercial

O principal objetivo da ferramenta é servir como um instrumento de inteligência comercial para apoiar as análises empresariais, o planejamento estratégico e a avaliação de riscos. A interface permite realizar consultas dinâmicas informando o código SH6 (numeração de seis dígitos criado pela Organização Mundial das Alfândegas para classificar mercadorias no comércio global) ou a descrição detalhada do produto.

A plataforma foi desenhada para responder de forma direta a perguntas essenciais do cotidiano exportador, como se o produto selecionado foi exportado pelo Brasil para os EUA no período recente, o nível de relevância atual do mercado norte-americano para esse setor, se o item consta nas listas analisadas das medidas tarifárias acompanhadas, e quais outros mercados globais importam esse mesmo produto, servindo de alternativa para o negócio.

Além do mapeamento tarifário, o painel detalha a evolução das exportações bilaterais, disponibiliza notas metodológicas e oferece uma seção de perguntas frequentes para guiar o usuário na correta interpretação dos dados.

Medidas tarifárias monitoradas

O painel centraliza o acompanhamento de quatro grandes frentes regulatórias implementadas ou avaliadas pelas autoridades norte-americanas:

Medida Tarifária Status Atual Escopo e Impacto Principal
Seção 232 – Tarifas Setoriais Vigente Aplicada sob justificativa de segurança nacional; afeta diretamente os setores de ferro, aço, cobre, alumínio, automóveis e autopeças.
Seção 122 – Medida Temporária Global Vigente por prazo determinado Tarifa global adicional de 10% de aplicação ampla sobre as importações, com previsão de encerramento para 24 de julho de 2026.
Seção 301 – Investigação Comercial contra o Brasil Em investigação Avalia práticas comerciais brasileiras alegadas como injustificáveis ou discriminatórias; ainda não se converteu em tarifa final.
Seção 301b – Investigação sobre Trabalho Forçado Em investigação Conduzida de forma ampla contra todos os países; a exemplo da Seção 301, ainda não está em vigor e prevê listas de isenção.

 

(*) Com informações da ApexBrasil

 

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China cria mecanismos financeiros na África para não depender de dólar mas desdolarização segue distante

Da Redação (*)

Brasília – A China vem ampliando a infraestrutura financeira na África para não depender do dólar, o que permite comercializar bens e serviços por meio das moedas africanas e da chinesa, o yuan.

Apesar das mudanças, o uso yuan (ou renminbi) ainda é minoritário no continente e a chamada desdolarização segue fora do horizonte, mesmo para as autoridades de Pequim.

No fim de junho, o Banco Central da China autorizou o pagamento com yuan diretamente no banco Standard Bank, maior grupo bancário do continente com sede na África do Sul, em uma parceria com o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC).

“[A parceria] nos coloca em uma posição única para lidar com renminbi chinês (RMB), permitindo que as empresas façam e recebam pagamentos em RMB para liquidações comerciais, viabilizando o comércio entre a África e a China”, diz comunicado do Standard Bank, presente em 21 países africanos.

Atualmente, a China é a principal parceira comercial da África. Entre 2000 e 2024, o crescimento médio do comércio entre o continente e a China foi de 14%, ao ano, segundo a Administração Geral de Alfândegas (GAC) da China.

Em 1º de maio, a China decidiu isentar taxas de importações de produtos africanos, o que deve reforçar o comércio entre o gigante asiático e a África.

Yuan ainda é minoritário

O analista geopolítico Marco Fernandes, do Conselho Popular do Brics, disse que o avanço do yuan na África ainda é tímido, mas destacou que a China vem construindo uma infraestrutura capaz de comercializar no continente sem precisar usar o dólar.

“Isso é um começo. A China tem feito uma série de iniciativas, como essas, no mundo inteiro para poder comercializar sem o dólar. Mas o montante negociado em yuan é ainda irrelevante considerando o tamanho da economia global. É como se eles estivessem construindo os trilhos para o trem bala chinês passar no futuro”, comentou.

O analista do portal Brasil de Fato acrescentou que as commodities de energia e alimentos, em sua maioria, ainda são negociadas em dólares no mundo todo.

“O yuan é hoje a quinta moeda de comércio mundial com cerca de 8,5% das transações globais, ou seja, muito pouco ainda. Mas está crescendo se você comparar com três, cinco ou dez anos atrás”, disse Marco Fernandes.

A hegemonia do dólar

Uma das agendas do Brics, grupos de países do Sul Global que inclui Brasil, China, Índia, África do Sul, entre outros, tem sido a “desdolarização” da economia mundial uma vez que o uso do dólar como moeda do mercado internacional concede vantagens econômicas e políticas aos Estados Unidos (EUA).

A agenda de “desdolarização” da economia mundial é, por sua vez, atacada pelo presidente Donald Trump, que promete lutar para manter a hegemonia da moeda dos EUA no mundo.

China hesita em impulsionar yuan

O também editor da revista Wenhua Zongheng International, Marco Fernandes, destaca, por outro lado, que a China não tem interesse em uma desdolarização imediata, entre outros motivos, por ter muitas reservas ainda em dólar. Além disso, Pequim tenta manter o valor da sua moeda para preservar a competitividade das exportações chinesas.

Outro problema é que a China evita abrir sua conta de capitais, medida apontada como necessária para internacionalização do yuan, a fim de não expor o sistema financeiro chinês às turbulências da especulação global. A conta de capitais representa a movimentação de recursos que entram e saem do país.

“Uma rápida desvalorização do dólar significaria um prejuízo muito grande, tanto para o Estado chinês, quanto para as empresas chinesas. É preciso que esse processo de desdolarização seja lento, gradual e seguro”, afirmou Marco Fernandes.

Alternativa ao dólar

O economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr., ex-vice-presidente do banco do Brics, publicou, em junho deste ano, artigo com proposta para uma nova moeda de reserva para o comércio internacional.

Nogueira reconhece que a rede de pagamentos do Banco Popular da China (PBOC), que envolve mais de 40 bancos centrais, amplia o papel da moeda chinesa nas operações de liquidação do comércio internacional.

Porém, o especialista destaca que a substituição do dólar pelo yuan ainda não interessa à economia chinesa e propõe, no lugar, a criação de uma moeda própria para o comércio global formada por uma “cesta” de moedas dos países do Sul Global.

“A criação de uma nova unidade de conta por um grupo de países do Brics (não necessariamente todos) e outras nações do Sul Global. Em determinado momento, a unidade de conta seria convertida em uma nova moeda, preservando os mesmos pesos”, escreveu Paulo Nogueira no Valdai Discussion Club, centro de estudos sediado em Moscou.

Para o analista geopolítico Marco Fernandes, a desdolarização da economia é importante para trazer mais justiça para economia mundial, além de servir para reduzir o poder político e econômico dos EUA que, por meio de sanções e embargos financeiros, conseguem submeter outras nações aos interesses de Washington.

“Por causa da hegemonia do dólar, toda vez que o Banco Central dos EUA sobe os juros, há uma desvalorização das moedas dos países pobres. Isso significa que as importações ficam mais caras. Trigo, arroz, milho e outros alimentos ficam mais caros. Uma pequena variação pode significar a fome, ou mesmo a morte, de milhares de pessoas”, concluiu.

(*) Com informações da Agência Brasil

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Mais de 4 mil produtos brasileiros exportados aos EUA podem ter tarifa elevada a 37,5%, indica projeção da CNI

Audiências públicas sobre as propostas de tarifas adicionais ocorrem nesta semana em Washington; medidas podem atingir US$ 14,9 bilhões em exportações brasileiras

Da Redação (*)

Brasília -Uma projeção da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que, caso o governo dos Estados Unidos adote as novas propostas de taxação contra o Brasil – de 25% e 12,5% – cerca de 4.187 produtos exportados pelo Brasil serão afetados, o equivalente a US$ 14,9 bilhões em exportações.

Todos esses produtos estão hoje submetidos à tarifa adicional temporária de 10% prevista na Seção 122 da legislação comercial americana, vigente até dia 24 de julho. Nesta semana acontecem as audiências públicas para tratar de possíveis duas novas tarifas que produtos brasileiros podem sofrer: uma investigação especificamente sobre o Brasil que sugere sobretaxa de 25% e outra investigação sobre trabalho forçado onde o Brasil também está incluído e pode sofrer uma taxa de 12,5%.

Se as duas novas propostas forem adotadas, haverá um acréscimo de 27,5 pontos percentuais sobre esses bens, dos quais 62% são bens intermediários, utilizados como insumos em processos produtivos. Neste caso, a taxação contra o Brasil chegaria em 37,5%.

Prejuízo bilateral

Entre os principais produtos que o Brasil exporta para os Estados Unidos que podem ser afetados pela tarifa acumulada de 37,5%, o Brasil atua como o principal fornecedor ao mercado norte-americano em 11.

Para o presidente da CNI, Ricardo Alban, novas tarifas contra o Brasil também vão elevar custos para empresas, consumidores e cadeias produtivas dos Estados Unidos. “O aumento das tarifas compromete uma relação comercial construída ao longo de décadas e prejudica empresas dos dois países. Estamos falando de cadeias produtivas altamente integradas, nas quais muitos produtos brasileiros são essenciais para a indústria norte-americana”, explica.

CNI acompanha audiência nos Estados Unidos

O embaixador brasileiro Roberto Azevêdo representará a CNI na audiência pública de  amanhã (07), em Washington (EUA), sobre a proposta de tarifa adicional de 25% contra produtos brasileiros. Dos 80 inscritos para falar na audiência, 66 devem se posicionar contra a medida.

A investigação foi aberta em julho de 2025 com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana. O USTR concluiu que práticas brasileiras relacionadas a comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao etanol e combate ao desmatamento seriam restritivas ao comércio dos Estados Unidos. A expectativa é que haja uma decisão final até 15 de julho.

“A imposição de uma tarifa adicional de 25% não se justifica sob os aspectos jurídico, econômico e estratégico. A CNI defende que o diálogo e a cooperação bilateral são o caminho mais adequado para preservar uma relação sólida entre os dois países”, reforça Alban.

(*) Com informações da CNI

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Presidente Lula defende acordo Mercosul-China; especialistas descartam tratado nos curto e médio prazos

Da Redação

Brasília – Em plena campanha política visando as eleições presidenciais de outubro próximo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou no último dia 30 em Assunção, que o Mercosul quer negociar um acordo comercial com a China. A declaração foi dada durante a cúpula do bloco, realizada na capital paraguaia. No mundo real, especialistas em comércio exterior consultados pelo Comexdobrasil.com divergem do presidente e veem grandes entraves a serem superados antes de o Mercosul, e o Brasil em especial, poder vir a cogitar da assinatura de um acordo de livre comércio com a segunda maior potência econômica do planeta.

O presidente Lula da Silva tem defendido uma aproximação com a China, sobretudo em meio às tensões comerciais com os Estados Unidos. Na cúpula do G7, realizada no início de junho na França, o mandatário brasileiro disse que o país asiático ocupou um espaço que estava vazio e que “os Estados Unidos não podem se queixar que a China está ocupando um espaço {no mercado brasileiro e do Mercosul} se ele estava vazio”.

Na opinião de José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) é praticamente inviável, ou mesmo impossível o Brasil cogitar a assinatura de um acordo entre o Mercosul e a China nos curto e médio prazos.

O executivo da AEB destaca que “todos sabemos que temos um custo Brasil bastante elevado, com esse custo, vamos seguir exportando basicamente commodities e não produtos manufaturados para o exigente e disputado mercado chinês”. Castro afirma ainda que “se fizer o dever de casa, reduzindo os custos de produção, implementando reformas como a tributária e outras mais, futuramente poderá vir a pensar num acordo dessa magnitude. Por enquanto não existem condições para isso”.

Especialista vê acordo apenas no longo prazo

Por sua vez, Jackson Campos, especialista em Comércio Exterior, afirma que um acordo dessa magnitude envolve riscos importantes: “a elevada competitividade da indústria chinesa pode aumentar a pressão sobre alguns setores industriais do Mercosul, exigindo negociações cuidadosas, cronogramas graduais de abertura e mecanismos de proteção para segmentos mais sensíveis”.

Campos reforça que “esse é um acordo factível, mas apenas no longo prazo”. E reforça: “um tratado comercial entre Mercosul e China envolve negociações complexas e exige consenso entre todos os países do bloco, então dificilmente seria concluído rapidamente. Ainda assim, faz sentido dentro do atual cenário de reorganização do comércio global, em que os países buscam diversificar mercados e reduzir vulnerabilidades”.

Ao mesmo tempo em que aponta grandes obstáculos no caminho das negociações e de uma hipotética assinatura de um acordo comercial com os chineses, Jackson Campos vislumbra ganhos para o Brasil quando e se esse tratado vier a ser firmado: “os principais ganhos para o Brasil estariam na ampliação do acesso ao mercado chinês, na atração de investimentos em infraestrutura, logística e tecnologia e na criação de um ambiente mais previsível para o comércio. Também existe potencial para ampliar a exportação de produtos de maior valor agregado, mas isso dependerá da competitividade da indústria brasileira. O acordo abriria portas, mas não muda sozinho a composição da pauta exportadora, hoje concentrada em commodities”.

Castro critica ausência de uma política comercial

Com uma postura crítica e fundamentada, José Augusto de Castro lembra que “cada vez que o presidente vai ao exterior, ele lança uma proposta de acordo comercial com um componente político. E dessa vez não foi diferente”.

Castro destaca que “nós não temos uma política comercial. Temos uma política segmentada por países. Cada país recebe {do Brasil} uma proposta de acordo comercial e é claro que esse acordo não vai poder funcionar porque não foi feito para o mundo, mas para um país especificamente, e nós queremos que esse acordo se aplique. O Brasil tem muitas dificuldades em firmar e viabilizar acordos. Acordos nós sabemos firmar, viabilizá-los é outra coisa, porque temos muitas dificuldades em fazer com que os detalhes colocados nos acordos sejam de fato aplicados”.

Ao contrário do Chile e do México, que já firmaram mais de 40 acordos comerciais, Castro afirma que “o Brasil tem pouquíssimos desses acordos. Pouquíssimos em quantidade e em qualidade. Temos um acordo com a Palestina, que é contabilizado como acordo comercial, mas é um acordo político. O que justifica um acordo com a Palestina? Chilenos e mexicanos têm acordos de fato, inseridos no dia a dia deles, diferentemente dos nossos acordos, desvinculados do nosso cotidiano”.

Uma visão pragmática do hipotético acordo

CEO do LIDE China, José Ricardo dos Santos Luz Júnior tem uma visão mais pragmática e menos apaixonada sobre esse acordo que por enquanto não passa de uma especulação. Para ele, “uma vez consentido e debatido entre os integrantes do Mercosul, esse acordo entre o Mercosul e a China tende, claro, a intensificar as relações desses países com a China. Por um lado, a gente tem os pontos de atenção ou de apreensão de alguns países, especialmente no caso da indústria e dos bens de consumo, se os integrantes do Mercosul vão ficar mais dependentes da China e como está esse processo de industrialização em cada país”

Profundo conhecedor das relações sino-brasileiras, o executivo vê uma identificação entre o processo de neoindustrialização brasileira, baseado na sustentabilidade e na inovação, com o megaprojeto chinês Nova Rota da Seda, em decorrência do incremento das relações bilaterais em inovação, especialmente em Inteligência Artificial, indústria 5.0, que é a IA mais a Inteligência das Coisas (IoT na sigla em inglês). Ele menciona especificamente a revolução ligada à inovação em saúde, materializada pelo acordo entre os governos brasileiro e chinês para a construção de dum hospital inteligente no estado de São Paulo.

O influente diretor do LIDE China destaca que no ano passado, a corrente de comércio (exportação+importação) Brasil-China totalizou a cifra recorde de US$ 171 bilhões e que a tendência é aumentar esses números: “não podemos nos esquecer de que o Brasil tem a segurança alimentar de que a China precisa. Segurança alimentar porque os nossos alimentos além de serem rastreáveis e frutos de um processo sustentável. Além disso, oferecemos à China segurança mineral, porque temos as terras raras, os minérios indispensáveis à produção dos chips, baterias e vos veículos elétricos chineses. Além disso, temos a segurança energética. Nossa matriz energética é uma matriz verde e por isso temos visto cada vez mais crescerem os investimentos chineses na área da energia solar e eólica no Brasil. Há um receio da indústria que eventuais integrantes do Mercosul fiquem mais dependentes da China, mas, por outro lado, é mais um leque {de opções} que se abre”.

Ele reforça a argumentação apresentada pelo presidente da AEB em relação à necessidade de o Brasil “fazer o dever de casa” e reitera que “se tivermos um discurso, se fizermos o dever de casa, nós e os demais integrantes do Mercosul em conjunto com o Brasil, conseguiremos apresentar à China quais são nossos interesses. A nossa grande dificuldade não é {de realizar acordos comerciais}, mas sim de provar quais são os nossos interesses na relação com a China e seguir adiante com essa aproximação”.

 

 

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